Geração Esquecida: o desemparo econômico da terceira idade

Homens idosos preenchendo formulários em uma feira de emprego em Seul.
New Shilla Kwan

Não é apenas o Brasil que sofre com uma bolha previdenciária, com esse tema sendo tão debatido no nosso país é esperado que um país de primeiro mundo como a Coreia do Sul seja um exemplo, certo? Errado. Nós já tocamos no assunto quando falamos dos índices de depressão associado à pobreza entre os idosos aqui, mas apenas “cutucamos” o assunto, qual agora vamos explorar mais, a fim de entender quais os problemas que a Coreia do Sul também tem enfrentado.

Tudo se inicia com uma questão cultural, pregada a anos, de que os filhos devem cuidar dos pais idosos, mas essa cultura vem desaparecendo e o governo não acompanha as mudanças na mesma velocidade.

O sistema previdenciário nacional foi implantado em 1988 e apenas um terço das pessoas com mais de 65 anos possui alguma pensão do governo. Isso se reflete em uma taxa de mais de 45% da população idosa das grandes cidades vivendo na pobreza, se tornando ainda maior na zona rural. O nível de pobreza aliado com a quebra da estrutura social leva diversos idosos a não poderem até mesmo se alimentar.

O Pastor Choi Seong-Won distribuindo comida para idosos sul-coreanos.
O Pastor Choi Seong-Won distribuindo comida para idosos sul-coreanos.

A população que ajudou a reconstruir a economia do país após a Guerra da Coreia está sofrendo pelo mesmo motivo: economia. Com as exportações encolhendo e o PIB em baixo crescimento, a Coreia do Sul esta sofrendo os reflexos do recuo da economia global. A presidente Park Geun-hye que prometia a cada cidadão acima de 65 uma bolsa de ₩ 200.000 não cumpriu sua promessa, alegando que a economia não permitiria isso. Um problema que deve se agravar, visto que a população envelhece rapidamente.

Assim sendo, a Coreia do Sul está passando por um fenômeno, as pessoas da terceira idade estão procuram uma recolocação no mercado profissional para complementar as pensões escassas ou às vezes inexistentes. A média em que os homens sul-coreanos deixam de trabalhar é aos 71,1 anos, a segunda maior na OCDE, apenas atrás do México.

O que não é fácil para um jovem, se torna ainda mais hostil para os idosos. Para a presidente, uma geração que cresceu em estaleiros e siderúrgicas não está preparada para a era dos smarthphones e start-ups.

Desta maneira, em um país em que as empresas costumam dar preferencia para funcionários abaixo dos 50 anos, eles enfrentam um grande problema: o etarismo. Muitos idosos conseguem empregos de menor expressão como porteiros, vigias, pequenos cargos em empresas menores, entre outros. Alguns se aventuram em tentar abrir o próprio negócio, mas sem possuir a mesma saúde e força de outrora, há aqueles que acabam fracassando. “De acordo com a Statistics Korea, metade dos proprietários de pequenas empresas estão agora com mais de 50 anos de idade.” Isso gera, de acordo com o ministro das Finanças Choi Kyung-Hwan, uma concorrência predatória.

Em um artigo, a BBC denunciou o aumento no índice de prostituição entre idosas, que acabam tendo que recorrer ao modo de vida ilegal para sobreviver. O tema também é abordado no filme do diretor E J-Young, A Dama de Baco, qual recomendamos e fizemos crítica aqui.

Taxa de pobreza por faixa etária. Fonte: OECD, 2011.
Taxa de pobreza por faixa etária. Fonte: OECD, 2011.

De um país devastado pela Guerra para a quarta maior economia da Ásia em algumas décadas, a Coreia do Sul teve um grande salto no desenvolvimento, o que se tornou difícil de acompanhar.

A tecnologia acaba por ser uma grande barreira, porém a discriminação pela idade também faz com que empresas não desejem pessoas idosas para qualquer cargo, mesmo que passem por cursos de qualificação.

Medidas governamentais tentam mudar este quadro. Em 2014 foi aprovada a lei para garantir que nenhum trabalhador seja obrigado a se aposentar antes dos 60 anos. Foram montados centros especializados para a recolocação da terceira idade, criados pelo Ministério de Trabalho, que auxilia aqueles que estão procurando retornar ao mercado de trabalho. Há também em ação um plano de recolocação profissional, onde o governo subsidia até 70% para uma nova formação, com limite de ₩ 2.000.000 anuais.

Infelizmente, as prioridades da nova geração são outras e aqueles que alavancaram o país estão esquecidos, sejam pelos filhos e pelo governo. O que vale lembrar é que um dia a população atual irá envelhecer e pensar numa previdência de qualidade não é só cuidar dos antepassados ou do presente, mas do próprio futuro.

Por Amanda Soares
Fontes: Edition, KoreaPost, Times, BBC
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