Crítica: A Rede (Geumul) – 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

 

Novo filme do cultuado diretor Kim Ki-duk expõe as armadilhas ideológicas de uma Coreia dividida.

Helder Novaes (escritos, pesquisador e editor, formado em Letras, Artes e Cinema) nos traz mais uma crítica, desta vez o filme escolhido foi A Rede (Geumul), exibido na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que trouxe mais de 300 filmes de diversos países. O filme nos encaminha para a questão: o que acontece quando um pescador norte-coreano fica a deriva e acaba no país do Sul? Confira a crítica logo abaixo.

 

Em A Rede, exibido na 40ª Mostra de São Paulo, Kim Ki-duk muda seu estilo para contar uma história política, violenta e angustiante. Os fãs do aclamado e premiado diretor coreano (especialmente aqueles que ainda se lembram do poético Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera) certamente vão se surpreender com o estilo seco e objetivo de agora. Na trama, Nam Chul-woo é um pescador norte coreano que leva uma vida simples com sua mulher e filha. Até que um dia, por um descuido, sua rede fica presa ao motor do barco, que quebra e o deixa a deriva. O fluxo do rio, que separa as duas Coreias, acaba o levando para o Sul.

Resgatado do outro lado da fronteira, ele pede desesperadamente que o ajudem a consertar o barco e o deixem voltar para sua terra. Mas apreendido pela polícia sul-coreana ele passa por um intenso e brutal interrogatório que visa averiguar se é ou não é um espião tentando se infiltrar no lado capitalista e enviar informações ao seu país. Sem provas concretas que o incriminem, devolvê-lo ao Norte soa como derrota. Assim, sob a alegação de lutar contra a tirania, a ditadura e a lavagem cerebral que a população da Coreia do Norte recebe, tentam de todas as formas forçar a sua deserção, cerceando a livre escolha em nome de um teórico bem maior.

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O filme estabelece então uma espécie de jogo de espelhos, em que diferenças entre Sul e Norte cedem lugar a uma simetria de comportamentos e paranoias, uma vez que para o Sul é inconcebível um cidadão do Norte viver sob o regime ditatorial e não querer ficar na bem sucedida economia capitalista sul-coreana.

Com a “missão” de salvar e libertar o maior número de pessoas da tirania da ditadura norte-coreana, o lado Sul tenta de todas as formas obrigar Nam a desertar – e utilizando meios pouco democráticos de convencimento. A tentativa de cativar o pescador, mostrando-lhe a imponência e grandiosidade de Seul acaba sendo em vão. Se por um lado o camarada do norte fica impressionado com a riqueza capitalista, por outro lhe chama a atenção a pobreza em que outros vivem, o desperdício de alimentos e materiais.

Kim Ki-duk não toma partido, nem tenta levar o espectador a escolher um lado entre o norte e o sul, e por vezes procura mostrar que ambos os lados possuem mais em comum do que imaginam. Seu objetivo está em revelar o quanto o fervor ideológico é prejudicial, cega o bom senso e prejudica a vida de terceiros.

Apesar de algumas obviedades no enredo e um ou outro deslize, fatores que tornam o filme um pouco óbvio demais, A rede tem o seu valor, especialmente para aqueles que se interessam pelo tema político e a Coreia de modo geral.

 

Por Helder Novaes
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