10 ESTRANGEIROS contam suas PIORES experiências na COREIA DO SUL

Belíssimas ruas onde o histórico e o moderno se encontram, cidades seguras onde furtos e outros crimes são praticamente inexistentes, pessoas com peles perfeitas desfilando seu senso de moda impecáveis, as músicas do seu artista coreano favorito tocando por toda parte.
Depois de anos de graduação em k-drama e k-pop, essa é a imagem que nós tendemos a criar da Coreia do Sul, certo? E em muitos aspectos essa é sim a realidade do país que é um dos mais desenvolvidos do mundo. Mas até que ponto essa idealização de toda uma população é saudável?
Esperar que 50 milhões de pessoas sejam exatamente como os heróis e heroínas da TV pode levar a muitas decepções. Pensando nisso, a KoreaIN perguntou a estrangeiros vivendo na Coreia, quando eles perceberam que, apesar de todas as inegáveis qualidades, a Coreia não era assim um “conto de fadas”. Eles compartilharam diversas experiências conosco, desde seus relacionamentos românticos, amizades, separações a problemas contidianos como andar de metrô.

(Nota: os depoimentos abaixo não necessariamente representam a opinião da KoreaIN e, com eles, queremos apenas notificar sobre a necessidade de se manter alerta e entender que a Coreia, assim como qualquer lugar do mundo, tem pontos positivos e negativos) 

FAZER AMIGOS É UM DESAFIO

“Eu realmente amo viver aqui, mas acho que ainda mais que as experiências ruins, acho que o isolamento é a pior parte, mesmo que você seja fluente em coreano. Ainda que você consiga fazer amigos próximos, eles estão sempre muito ocupados e raramente têm tempo. Como estrangeiro, você é mais facilmente esquecido e posto como última prioridade em várias ocasiões, por isso a prática de “ghosting” * é muito comum.
Eu tenho me sentido muito sozinha aqui e sei que muito disso está relacionado à minha ansiedade e depressão. Mas mesmo me forçando a sair da minha zona de conforto, fazer amigos tem sido um grande desafio”.
(Sara, 22 anos, Estados Unidos, professora de inglês, na Coreia há 1 ano)

*Ghosting: quando alguém deixa de responder suas mensagens e desaparece sem maiores explicações.

Ele me disse “Eu só queria experimentar seduzir uma estrangeira, mas acho que é mais fácil com as coreanas mesmo”.

A EXPERIÊNCIA DE SEDUZIR UMA ESTRANGEIRA

“Eu namorei um rapaz que me tratava assim como os “oppas” dos dramas que nós vemos na TV. Uma trilha Sonora romântica tocava na minha cabeça toda vez que nós estávamos juntos. Ele abria a porta do carro, puxava a cadeira pra que eu me sentasse, me trazia flores, tirava o terno e punha ao meu redor quando esfriava, todas aquelas cenas com que eu sonhei enquanto assistia ‘Goblin’.
Ele era extremamente doce e educado, e nós tínhamos amigos em comum, então eu estava certa de que era a escolha perfeita. Após vários encontros e todo o romance, ele me perguntou diretamente ‘Quando nós vamos transar? Eu estou perdendo muito tempo com toda essa peça de teatro’, eu respondi assustada que queria esperar. Ele me deixou sozinha no restaurante após dizer ‘Eu só queria experimentar seduzir uma estrangeira, mas acho que é mais fácil com as coreanas mesmo’, ele desapareceu depois disso, nem os nossos amigos em comum ouviram mais notícias”.
(Maria, Malásia, estudante de graduação em uma universidade coreana, na Coreia há 2 anos)

GOOGLE TRADUTOR AO RESGATE

“Um dia eu andava de volta pra casa depois de ir a um bar. O caminho é através de um parque da vizinhança pelo qual eu sempre passo e, ao meu aproximar da trilha ao redor do lago, notei um cara mais ou menos da minha idade vindo na minha direção. Ele segurava uma sacola de mercado e eu não vi nenhum perigo, afinal, é a Coreia. Ao passar por mim, entretanto, ele disse “oi”, eu ignorei e continuei a andar. Ele então deu meia volta e começou a me seguir, eu apressei o passo e ele gritou me pedindo pra esperar. Como essa área do parque não é muito iluminada, eu fiquei com medo, mas decidi enfrenta-lo, quando parei e gritei ‘O que você quer?’. Ele digitou algo no celular e me mostrou uma frase traduzida em um app ‘Você quer tomar um drink comigo?’. Eu comecei a achar a situação engraçada e só respondi que não, que tinha passado a noite com meus amigos e estava cansada. Ele então novamente digitou algo no celular e me mostrou ‘Eu quero beber com você, porque você é linda’. Eu agradeci o elogio, disse não mais uma vez e segui o meu caminho. Um minuto depois ele correu atrás de mim e começou a gritar ‘me beija’ repetidamente, eu continuei a andar o ignorando. Então, quando eu já me aproximava do portão de saída, ele gritou ‘vamos transar’ em coreano, mas usando palavras ainda mais rudes. Eu só corri sem olhar pra trás e nunca mais peguei aquele caminho de volta pra casa.”
(Beatrice, 24 anos, Estados Unidos, professora de Inglês, na Coreia há 3 anos)

“Entender a sociedade coreana é uma coisa muito complexa, mas necessário para poder viver aqui. “

CHOQUE DE REALIDADE

“Eu já planejava me mudar pra Coreia desde 2012, quando vim pra cá a turismo. Então, quando eu conheci meu noivo em 2016, num site de relacionamento (prefiro não falar para não fazer propaganda para menores de idade, mas era um site em que a pessoa precisa colocar documentação e tudo mais), resolvi que viria por um período mais longo. Mas sinceramente, conhecer gente na internet é um perigo, eu dei sorte. Inclusive meu próprio noivo não recomenda que meninas fiquem procurando coreanos em aplicativos.
Sobre a ‘doença do oppa’*, eu vejo como dois lados da mesma moeda, assim como muitas estrangeiras tem fetiche por coreanos, muitos coreanos têm fetiches, principalmente com ocidentais. Daí surgiu o termo ‘baek ma tada’, que é um termo derrogatório e que eu gostaria de não ter que mencionar. Ele significa literalmente ‘cavalgar o cavalo branco’, e é usado pra descrever a experiência de se envolver com uma menina branca ocidental. É muito comum que coreanos parem estrangeiras na rua, peçam o kakao (algo como um whatsapp coreano), qualquer coisa para se aproximar. Nas vezes em que aconteceu comigo, só me deixaram em paz quando eu disse que tinha namorado.
Não existe lugar perfeito e, apesar de toda a segurança coreana, um dos maiores problemas que vejo aqui, além da disparidade entre homens e mulheres, é a cultura da bebida. Os homens em especial bebem demasiadamente e é muito comum tentarem embriagar as mulheres e arrastá-las para motéis. As questões de hierarquia também afetam muito, a convivência pode se tornar sufocante e em muitas situações você é obrigada a fazer coisas que não quer por ser mais jovem.
Enfim, é uma cultura muito diferente da nossa. Entender a sociedade coreana é uma coisa muito complexa, mas necessário para poder viver aqui. O país é lindo e um paraíso pra quem gosta de K-pop, mas é necessário entender que existem pessoas boas e ruins em todo lugar. Não pode chegar aqui imaginando que tudo é perfeito e nada de ruim pode acontecer.”
(Mariana, 28 anos, Brasil, estudante de língua coreana, na Coreia há 8 meses)

* Doença do Oppa: termo utilizado por coreanos e estrangeiros vivendo na Coreia para descrever a ilusão de que todo coreano é como os rapazes na TV.

“MINHA SOGRA ME LEVOU PRA CLAREAR A MINHA PELE”

“Eu conheci meu marido no meu país e, quando nos mudamos para a Coreia, minha sogra fez de tudo para que nós morássemos no mesmo prédio que ela. Apesar de não gostar muito da ideia, eu aceitei. Foi quando meu pesadelo começou. Ela entra na minha casa quando bem entende, diversas vezes ela entrou no banheiro enquanto eu tomava banho pra se certificar que eu não estava com ninguém, segundo ela. Sempre que faço compras, ela parece saber, me ataca na saída do elevador, e verifica cada coisa que comprei e reclama que eu estou gastando o salário do filho dela. Durante os feriados, as noras são obrigadas a cozinhar durante todo o dia, enquanto os homens assistem TV e bebem; as mulheres mais velhas gritam e nos chamam de incompetentes quando não fazemos a comida do jeito que elas querem.
A pior parte, entretanto, é o racismo. Nem todo coreano é racista, mas entre as famílias mais tradicionais, é muito difícil encontrar alguém que goste de pessoas de pele escura. Eu sou filipina e, naturalmente, sou morena e diversas vezes tive que sentar e escutar a família do meu marido fazendo piadas sobre negros e pessoas do sudeste asiático. A gota d’água foi quando minha sogra me levou à uma clinica de dermatologia como um presente, mas ao chegar lá o tratamento era para clarear a minha pele.
Meu relacionamento com meu marido é muito bom e ele é um ótimo pai pro nosso filho, mas a vida com a família dele tem sido muito difícil. Conversando com outras estrangeiras casadas com coreanos, essa é a realidade da maioria delas”.
(Jessica, Filipinas, dona de casa, na Coreia há 5 anos)

“Diversas vezes tive que sentar e escutar a família do meu marido fazendo piadas sobre negros e pessoas do sudeste asiático”.

ME ENCARARAM COMO SE EU FOSSE UM ANIMAL

“Certa vez eu esperava pelo último trem quando comecei a passar muito mal. Corri para o banheiro e acabei perdendo o trem, então tive que desistir da viagem e voltar pra casa. Peguei as escadas de volta para a parte central da estação e encontrei os portões trancados. Eu comecei a bater no portão e gritar por ajuda, mas as pessoas do lado de fora só ficaram me encarando como se eu fosse um animal e cochichando entre si. Liguei pra um amigo coreano e perguntei o que fazer, ele me disse que eu poderia tentar usar o telefone de emergência e pedir ajuda, mas que a pessoa do outro lado provavelmente não falaria inglês. Eu decidi então pular o portão. As pessoas do lado de fora começaram a rir e alguém até mesmo pareceu estar fazendo um vídeo. Eu caí do outro lado e ninguém ao menos perguntou se eu havia me machucado, todos só ficaram me encarando como se eu fosse um animal.
Quando cheguei em casa e liguei pra minha namorada, que é coreana, ela não se surpreendeu e disse que nunca esperaria que coreanos ajudassem alguém em uma situação como essa”.
(Tony, 32 anos, Canadá, professor de inglês, na Coreia há 1 ano e meio)

“ELE PUXOU MEUS FONES DE OUVIDO E TOCOU MEU PESCOÇO”

“Certa vez, logo no início do meu ano de intercâmbio, eu estava estudando em um café perto da minha universidade. Como queria um pouco de paz, me sentei em um dos lugares mais isolados, mas onde várias pessoas também estudavam. Com o passar das horas, o local esvaziou completamente e eu fiquei sozinha e fora da vista do resto dos clientes do café. Foi aí que um homem bem mais velho, que eu havia notado me observando mais cedo, se aproximou e tentou puxar assunto. Ele cheirava um pouco a álcool, então eu continuei assistindo o vídeo aberto no meu computador e fingi não o escutar. Ele então sentou na cadeira da frente e continuar a falar, colocando um chocolate já aberto na minha frente e sinalizando pra que eu o comesse. A essa altura eu já havia passado de incomodada pra assustada. Ele então se curvou na minha direção e puxou meus fones de ouvido e tocou meu pescoço. Eu congelei e ele deve ter entendido isso com um sinal verde, porque começou a tocar meu rosto. Nesse momento um dos baristas se aproximou e ao perceber as lágrimas no meu olho, pediu para que o homem fosse embora. Eu simplesmente peguei minhas coisas e corri pra casa.
Em outras ocasiões, grupos de homens de terno e muito bêbados tentaram me parar em ruas escuras e/ou tentaram me forçar a passar meu número. Pode não parecer tão ruim quanto outras histórias que ouvi de amigas, mas essas coisas nunca haviam acontecido comigo em casa, então me traumatizaram muito”.
(Sam, Austrália, estudante de intercâmbio, esteve na Coreia por 11 meses)

“Minha namorada, que é coreana, não se surpreendeu e disse que nunca esperaria que coreanos ajudassem alguém em uma situação de apuros”.

ESTRANGEIRAS NÃO SÃO PRA CASAR

“Conheci o meu ex-namorado no trabalho, nós dois somos comissários de bordo e parecíamos entender um ao outro muito bem. Depois de 1 ano de namoro, ele foi promovido e teve que se mudar de volta pra Coreia, nós conversamos muito e decidi que deveria ir com ele. Deixei meu emprego, me matriculei em uma universidade de Seul para estudar coreano e usei minhas economias para alugarmos um apartamento juntos. Os primeiros seis meses foram ótimos, ele estava muito ocupado no trabalho, mas passava todo o tempo livre comigo, ajudava em casa e sempre passávamos datas importantes com a família dele. Depois de algum tempo ele passou a ter mais confraternizações de trabalho pras quais eu não era convidada ou eventos de família dos quais eu só ouvia depois. Às vésperas do nosso aniversário de 2 anos, ele me informou que, apesar de me amar, eu não era pra casar e que ele estava noivo de uma moça coreana escolhida pela família dele, mas que nós poderíamos continuar juntos até o casamento deles”.
(Julia, 29 anos, França, comissária de bordo, morou na Coreia por 1 ano e 4 meses)

“Ele disse que era o meu ritual de despedida e começou a tirar a camisa. Juntei toda a minha força e tentei deixar o quarto, dizendo que ia ligar pra Polícia, ele só riu e disse que ninguém acreditaria em mim”.

“ESSE É O SEU RITUAL DE DESPEDIDA”

“No meu último dia de estágio numa empresa grande daqui, saí pra beber com meus colegas de trabalho. Como era meu último dia e eu era a mais jovem, eles me fizeram beber muito, mas eu tinha trabalhado com eles o verão inteiro e todos pareciam ótimas pessoas, então não vi nenhum perigo nisso. Por volta da meia noite, os que eram casados foram embora e eu fiquei com um pequeno grupo de homens e uma moça que estava noiva de um deles. Nós então fomos pra uma balada e todos continuaram a beber, mas eu comecei a passar muito mal e um deles se ofereceu pra me levar pra casa. Nós pegamos um táxi e, em algum momento, eu percebi que ele não sabia meu endereço e tentei argumentar, mas minha fala estava estranha e eu não conseguia organizar meus pensamentos. Ele praticamente me carregou pra fora do carro e pra dentro de um prédio e, ao entrar no quarto, percebi ser um motel. Minha mente começou a clarear e eu consegui perguntar porque nós estávamos ali, ele respondeu que era o meu ritual de despedida e começou a tirar a camisa. Juntei toda a minha força e tentei deixar o quarto, dizendo que ia ligar pra Polícia, ele só riu e disse que ninguém acreditaria em mim. Consegui abrir a porta, corri pro corredor e comecei a gritar que eu não queria estar ali, um casal que parecia estar deixando o motel interferiu, o rapaz me protegeu enquanto a namorada dele ligava pra Polícia. Os policiais foram muito prestativos e o casal que havia me ajudado ficou comigo na delegacia até a manhã. Meu ‘quase-estuprador’ negou tudo o tempo todo, mas meu exame de sangue mostrou um tipo de “Boa Noite Cinderela” e ele foi indiciado. O processo ainda está na justiça e ele nunca foi preso.”
(Michele, 26 anos, Colômbia, estudante de pós graduação em uma universidade coreana, na Coreia há 2 anos)

” Ela se ele estava com dificuldade em conseguir uma boa coreana e por isso estava apelando para uma estrangeira, fazendo comentários pesados sobre a minha aparência. Foi horrível e ninguém disse nada, ninguém mandou ela se calar, todos só ficaram encarando constrangidos enquanto nós dois fingíamos não escutar”.

APRENDI A ME FAZER DE SURDA

“De forma geral, posso dizer que meus 2 anos de Coreia foram (e estão sendo) muito pacíficos. Fiz ótimos amigos, tive professores e chefes incríveis e que se tornaram uma espécie de família pra mim.
Claro que passei por pequenas agressões que no fim do dia te desanimam e cansam bastante. Como sou muito alta e loira, no início, quando era parada por estranhos e perguntada se era russa, eu imaginava ser apenas curiosidade, mas com o tempo aprendi que esse é um código pra prostituição. Quando meu coreano melhorou, comecei a entender as perguntas mais que diretas que homens estranhos me faziam em pontos de ônibus e até mesmo no metrô: ‘Quanto você quer pra dormir comigo?’, ‘Quanto por uma hora?’, por exemplo. Mas, sinceramente, pra uma brasileira, coisas desse tipo são, infelizmente, comuns e eu aprendi a me fazer de surda.
Acho que o momento que me fez ver a Coreia com outros olhos foi uma vez, quando estava no metrô com meu namorado, e uma senhorinha sentada na nossa frente começou a falar coisas horríveis sobre nós. Ela perguntava a ele qual era a graça de ‘cavalgar o cavalo branco’, se ele estava com dificuldade em conseguir uma boa coreana e por isso estava apelando pra uma estrangeira, fazendo comentários pesados sobre a minha aparência. Foi horrível e ninguém disse nada, ninguém mandou ela se calar, todos só ficaram encarando constrangidos enquanto nós dois fingíamos não escutar”.
(Andressa, 27 anos, Brasil, estudante de pós graduação em universidade coreana, na Coreia há 2 anos e 8 meses)

Se relacionar com pessoas novas é sempre um desafio, seja no âmbito amoroso, de amizade ou de trabalho. É importante lembrar que experiências ruins não são exclusividade da Coreia, mas temos sempre que nos preparar para choques culturais e para nos adaptarmos às diferenças.

Todos os nomes foram mudados por motivos de privacidade.

Por Jeiciane Torres
Não retirar sem os devidos créditos