70 Anos da Guerra da Coreia: Sete décadas de guerra fria

Garota carregando o irmão, em frente a um tanque M-26, no dia 9 de junho de 1951 (Crédito: arquivo histórico)

A história da Coreia sempre foi repleta de combates, invasões e anexações a outros países. Para entender o que levou à guerra entre as Coreias (1950 – 1953), primeiro é necessário contextualizar o que separou os países.



Ainda como um único país, durante a Dinastia Joseon – que durou entre 1392 a 1910 – houveram combates lendários contra os japoneses, mas a nação nipônica só teve sucesso em anexar o país em 1910, quando mandou tropas, ocuparam e instituíram como idioma oficial o japonês. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão ficou ao lado da Potência Eixo (Alemanha e Itália), logo ao fim dos conflitos acabou tendo que libertar todas as ilhas e territórios ‘roubados’, como descrito no documento da Conferência do Cairo (dezembro de 1943, quando China, Estados Unidos da América e Reino Unido enviaram representantes para a tomada de decisões em relação à Ásia no pós-guerra). 

Em 1945, a derrota dos japoneses e do Eixo fez com que acontecesse outra reunião entre líderes (dos EUA, Reino Unido e União Soviética), a Conferência de Potsdam discutiu novamente a independência dos estados tomados ao longo dos combates, além de outras questões políticas, envolvendo o Japão. Como já não era mais terreno nipônico, a Coreia teve seu trecho norte tomado pela União Soviética de Josef Stalin, tornando aquela parte do seu regime comunista, e o sul pelos Estados Unidos da América de Harry Truman, estabelecendo bases capitalistas. Os estados tiveram seus territórios delimitados pelo Paralelo 38, uma linha imaginária traçada 38 graus aos norte da linha do Equador.


O paralelo 38 (Créditos: Arquivo histórico)

Separação oficial das Coreias e primeiros conflitos

Após a separação e estabelecimento de dois estados coreanos, a cidade de Moscou recebeu conferências para discutir o futuro da Coreia, esse primeiro encontro resultou em um acordo de 5 anos de tutela entre as duas nações, estabelecendo uma articulação da comissão Soviético-Americana. Esta passou a se reunir em Seul, mas após dois anos não conseguiram entrar em consenso sobre a unificação do norte e sul. Os Estados Unidos recorreu à Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, o órgão mandou documentos redigidos sobre o problema para a União Soviética, que ignorou. Entre os itens legais nos arquivos incluía eleições democráticas em toda a península, mesmo sem o aval do trecho norte, os EUA realizaram pleitos eleitorais, elegendo o presidente Syngman Rhee e oficializando o surgimento da República da Coreia como um governo legal. Ao norte, estabeleceu-se oficialmente um regime comunista e a República Popular Democrática da Coreia, sob o comando de Kim Il-Sung, escolhido em eleições regionais, uma personalidade popular após ter liderado exércitos chineses durante a Segunda Guerra, posteriormente integrando o Exército Vermelho (soviético).


Da esquerda para a direita: Kim Il-Sung, líder da Coreia do Norte, e Syngman Rhee, presidente da Coreia do Sul (Créditos: Sideplayer)

A reunificação das Coreias nunca tinha sido deixada de lado e ambos os líderes nacionalistas almejavam conquistar a península como um todo, antes mesmo da guerra começaram houveram combates na fronteira, ceifando mais de 10.000 vidas. No início de 1950, Kim Il-Sung recorreu aos outros dois governos comunistas – China e U.R.S.S – pedindo apoio para uma possível guerra entre as Coreias. O governo chinês transferiu cerca de 50 mil soldados do Exército de Libertação Popular, todos de etnia ou descendente de coreanos, além de mais armas para Pyongyang. A União Soviética acabou oferecendo apoio, temendo o crescimento da influência chinesa no regime, caso não entrassem com algo também.

Em 25 de junho de 1950, uma multidão composta por 75.000 soldados norte-coreanos, armados e apoiados pela União Soviética e China, ultrapassaram o Paralelo 38, invadindo a Coreia do Sul, que durante os combates fronteiriços anteriores tinha sido apoiada pelos EUA. A justificativa oficial foi a de que eles estavam ultrapassando o Paralelo. O primeiro ataque os levou até a capital, Seul. Os oficiais de segurança norte-americanos foram pegos de surpresa por uma ofensiva tão grande, visto que não enxergavam as lutas na fronteira como ameaças reais, nada mais do que pelejas entre líderes de nações instáveis, mas o apoio da União Soviética fez soar todos os alarmes, e os Estados Unidos concluíram que aquela poderia ser o primeiro passo para uma campanha comunista e decidiram intervir.

A Guerra da Coreia teve três fases principais, ao iniciar pela ofensiva norte-coreana.



Primeira fase: Batalha de Pusan

Após a invasão na Coreia do Sul e tomada de Seul, o presidente Syngman Rhee ordenou que a capital fosse evacuada, mas também deu início a uma manobra que acabou conhecida como Massacres das Ligas Bodo, na qual os supostos simpatizantes do governo comunista eram obrigados a se alistarem nas “Ligas Bodo” (campos para reeducar ideologicamente os convocados). Naquele fatídico verão de 1950, mais 100.000 cidadãos sul-coreanos foram executados, sem provas de serem ligados ao comunismo. As forças armadas explodiram a ponte do Rio Han (que corta a capital), contendo parte do avanço do inimigo. Dois dias depois, uma tropa norte-americana foi mandada para auxiliar nos combates, tudo mediante à Resolução 83 (documento da ONU, autorizando o deslocamento militar em direção à península).

Apesar de ter o apoio da ONU, EUA e mais meia dúzia de países contrários ao regime norte-coreano, a parte sul da península continuou sendo tomada pouco a pouco. O fim da primeira fase se deu no mês de setembro de 1950, em Pusan (atual Busan), quando soldados de Syngman Rhee e os de Harry Truman estavam encurralados em um estreito espaço chamado Perímetro de Pusan. A reviravolta aconteceu por um erro na estratégia de guerra norte-coreana: em vez de concentrar grandes exércitos em cada região, Kim Il-Sung espalhou suas tropas para conquistar, com o crescimento do auxílio externo e armamentos cada vez mais pesados chegando em Pusan, a ofensiva mais forte mudou de lado. Assim, soldados alinhados às ideologias do sul contra-atacaram e os “inimigos vermelhos” recuaram.


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Segunda fase: Tropas em Incheon

Tropas norte-americanas à bordo de uma dos barcos atracados no porto de Incheon. No dia 9 de 18 de setembro de 1950. (Crédito: Arquivo Histórico)

A segunda fase também aconteceu pelo mesmo erro estratégico: não havia tropas o suficiente no porto de Incheon. Apesar das condições naturais pouco favoráveis (a maré subindo e descendo poderia atrapalhar). Com embarcações atracando na costa sul-coreana e depositando hordas de soldados, a ofensiva norte-coreana continuou recuando. Essa fase durou cerca de um mês.



Terceira fase: A China intervém oficialmente nos combates

Com as tropas norte-coreanas recuando novamente foram necessários ainda mais reforços. Em 18 de outubro, China ordenou a entrada de 300 mil soldados chineses na guerra. A força soviética, até aquele momento, tinha sido principalmente armamentista, mas após a retomada e crescente força sul-coreana/norte-americana os fez mudar de postura, oferecendo suprimentos, esquadrões e apoio aéreo. A batalha de Onjong terminou com uma vitória chinesa e um passo adiante para os regimes comunistas. A partir daquele momentos, a força militar em prol de cada país parecia estar equilibrada.


Soldados da Coreia do Norte capturados por soldados norte-americanos, em 20 de setembro de 1950 (Crédito: Arquivo Histórico)

A terceira fase durou de outubro de 1950, até 27 de julho de 1953, ou seja, o fim da guerra. O último ataque de maior efetividade aconteceu entre fevereiro e março de 1951, quando os exércitos norte-americano e sul-coreano conseguiram reconquistar terreno, empurrando tropas chinesas e norte-coreanas para o Paralelo 38.  Após esse período, a luta continuou criando impasses, batalhas sangrentas e perda monetária e de armamento. Estima-se que mais de 1,2 milhões de vidas foram perdidas na Guerra da Coreia, um combate iniciado por vaidade de líderes políticos.


Major Blackshear M. Bryan, trocando credenciais com o General Comunista Lee Sang Cho, durante a abertura das sessões da Comissão de Armistício Militar na Casa de Conferências de Panmunjom. Dia 27 de julho de 1953. (Créditos: Arquivo Histórico)

Em 27 de julho de 1953, após 3 anos, 1 mês e 2 dias de guerra, foi assinado o Armistício de Panmunjom, em Kaesong (antiga capital da Coreia unificada, localidade pertencente ao norte da península). Aquele representou o fim da guerra, além de ter sido um decreto de cessar-fogo imediato e a garantia do status quo ante bellum (expressão em latim para “como tudo estava antes da guerra”), também garantiu a criação da Zona Desmilitarizada (DMZ). No entanto, o documento era uma trégua, não um tratado de paz. Sendo assim, oficialmente, os países continuam em uma Guerra Fria até os dias de hoje.

Fontes: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10)
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