A descoberta de quatro pessoas desaparecidas mortas na Ilha de Jeju, um dos destinos turísticos mais populares da Coreia do Sul, desencadeou uma crise nacional envolvendo a atuação da polícia sul-coreana. O caso ganhou repercussão após a revelação de que um policial teria arquivado indevidamente denúncias de desaparecimento, fornecido informações falsas às famílias e encerrado investigações sem confirmar o paradeiro das vítimas.
O caso mais emblemático é o de Jang Mi-ran, de 37 anos, desaparecida desde maio deste ano. O corpo que se acredita ser o dela foi encontrado em uma plantação de palmeiras em Hallim-eup, na Ilha de Jeju, a apenas alguns minutos da pousada onde foi vista pela última vez. A descoberta ocorreu 104 dias após o seu desaparecimento.
Segundo as autoridades, Jang foi registrada como desaparecida pelo namorado em 15 de maio. Na ocasião, a polícia realizou buscas breves na região, mas o caso foi encerrado poucas horas depois. O policial responsável alegou ter falado com a mulher por telefone e confirmado que ela estava em segurança. Investigações posteriores, no entanto, não encontraram qualquer registro da suposta ligação.
Além de encerrar a ocorrência, o agente teria removido o nome de Jang do sistema de monitoramento de pessoas desaparecidas utilizando um código destinado a vítimas de acidentes fatais. A denúncia só voltou a ser investigada meses depois, quando familiares registraram um novo boletim de ocorrência.
Quando a investigação foi reaberta, grande parte das imagens de câmeras de segurança que poderiam ajudar a reconstruir os últimos passos de Jang já havia sido apagada automaticamente devido ao prazo padrão de armazenamento de 30 dias. O alerta público de desaparecimento também só foi emitido após a família iniciar uma campanha por conta própria.
O corpo encontrado estava em estado avançado de decomposição. Roupas compatíveis com as usadas por Jang no dia do desaparecimento, um telefone celular e uma pulseira de ouro foram encontrados próximos aos restos mortais. A perícia preliminar apontou morte por enforcamento, embora as investigações continuem em andamento.
A situação se agravou quando investigadores descobriram que o mesmo policial também teria encerrado indevidamente outro caso, envolvendo um homem na faixa dos 60 anos desaparecido em junho. A família recebeu a informação de que ele estava seguro e que não desejava contato. O homem foi encontrado morto 55 dias depois.
Nos dias seguintes, outros dois corpos de pessoas que haviam sido dadas como desaparecidas também foram encontrados em diferentes regiões costeiras da Ilha de Jeju. A polícia afirma que esses casos não possuem ligação direta comprovada com o policial investigado.
Com as quatro mortes registradas em um curto intervalo de tempo, o caso passou a ser descrito pela imprensa sul-coreana como uma “onda de desaparecimentos” em Jeju, aumentando a pressão sobre as autoridades para revisar procedimentos internos e garantir maior fiscalização sobre as investigações.
Diante das suspeitas, as autoridades revisaram os registros do policial e identificaram que ele havia encerrado sozinho 298 casos de pessoas desaparecidas desde o ano passado. Até o momento, cerca de dez casos considerados suspeitos estão sendo reavaliados, incluindo três em que as pessoas continuam sem paradeiro conhecido.
Na terça-feira (25), o Tribunal Distrital de Jeju expediu um mandado de prisão contra o agente, identificado apenas pelo sobrenome Bu. Ele responde por acusações de negligência no cumprimento do dever, falsificação de registros eletrônicos oficiais e obstrução das funções públicas. O policial nega ter encerrado falsamente os casos e afirma que realmente entrou em contato com Jang, embora não consiga informar qual número teria utilizado.
As críticas aumentaram ainda mais após a revelação de que a gravação da ligação de emergência feita pelo namorado de Jang foi apagada. O registro telefônico deixou de existir porque o sistema mantém os áudios por apenas três meses. A exclusão ocorreu mesmo depois da polícia já ter iniciado uma investigação contra o agente responsável pelo caso.
A repercussão do escândalo levou a Agência Nacional de Polícia da Coreia a anunciar mudanças no sistema de investigação de desaparecimentos. A partir de agora, casos de pessoas desaparecidas só poderão ser encerrados mediante aprovação de um supervisor, criando uma revisão em duas etapas para evitar decisões individuais sem fiscalização.
Além disso, a Polícia Metropolitana de Seul iniciou uma revisão de aproximadamente 90 mil casos de desaparecimento arquivados desde janeiro de 2024. A medida pretende identificar possíveis falhas semelhantes às encontradas em Jeju.
Quatro supervisores da Delegacia de Polícia de Jeju Seobu também foram afastados enquanto as autoridades investigam se houve falhas de supervisão que contribuíram para o arquivamento indevido dos casos.
O caso acontece em um momento politicamente sensível para a Coreia do Sul. O governo aprovou recentemente reformas que transferem à polícia grande parte dos poderes de investigação antes compartilhados com o Ministério Público, levantando um debate sobre a concentração de poder investigativo e a necessidade de mecanismos independentes de fiscalização.
Diante da crescente indignação pública, o presidente Lee Jae Myung ordenou uma ampla reforma da polícia sul-coreana e afirmou que a recente sequência de falhas disciplinares e erros em investigações se tornou um problema grave para a segurança pública do país.
Enquanto as autoridades continuam revisando centenas de casos arquivados, familiares das vítimas e grupos de direitos humanos cobram respostas sobre quantas pessoas podem ter sido afetadas pela suposta negligência policial em Jeju.
por Alice Rodrigues
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Imagens: Yonhap News Agency/Reuters
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