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Política

Gwangju Inhwa, a escola que inspirou o filme “Silenced”: abuso, impunidade e justiça após mais de uma década

[AVISO DE GATILHO] O texto a seguir contém termos sensíveis que podem servir de gatilho. Recomendamos cautela ao prosseguir a leitura.

A Escola Gwangju Inhwa (광주인화학교) foi uma escola para alunos surdos fundada em 1961 e localizada em Gwangju, na Coreia do Sul. A instituição ganhou notoriedade nacional quando décadas de abuso sexual de alunos foram reveladas em 2005. Um livro (Dogani, ou The Crucible) sobre o caso foi publicado em 2009 e sua adaptação cinematográfica (Silenced), foi lançada em 2011. Uma série de investigações seguiu e em meio à indignação pública, a escola foi fechada em novembro de 2011.


A escola

Em 2005, o professor recém-contratado Jung Yu-Jin recebeu um telefonema de uma mãe que relatava que uma das amigas de sua filha havia sido agredida na escola em que ele trabalhava — a Gwangju Inhwa, para alunos com deficiência auditiva. Jung tentou falar sobre a denúncia com seus colegas e superiores na escola, mas todas as suas tentativas foram frustradas; e após alertar grupos de direitos humanos, ele foi demitido.

Fundada em 1961, inicialmente, a escola era um Centro de Assistência Social para Surdos-Mudos de Jeonnam, mais tarde se tornou uma escola para os últimos anos do ensino fundamental. A seção do ensino médio foi inaugurada em 1993. No início dos anos 2000 a escola Gwangju Inhwa atendia 72 alunos, todos jovens com deficiência auditiva. Ao longo de décadas de funcionamento, seus estudantes foram expostos a diversos crimes pelos funcionários e professores, mesmo que indiretamente.

Segundo relatos, o diretor da instituição, identificado como Kim, havia violentado sexualmente uma adolescente de 17 anos em seu escritório e agredido fisicamente um estudante que seria a testemunha do crime. Além do diretor, um funcionário administrativo assediou sexualmente uma aluna de 22 anos e outro funcionário abusou sexualmente de meninos de 7 e 9 anos e beijou uma menina de 9 anos.

Acredita-se que os crimes tenham continuado desde 2000 e seis professores, incluindo o diretor, foram acusados de violentarem e abusarem sexualmente de pelo menos nove de seus alunos surdos entre 2000 e 2003. Nove vítimas se apresentaram, mas outros casos permaneceram sem solução, pois acredita-se que as vítimas tenham ocultado outros crimes por medo de represálias ou devido a traumas.

Dos seis agressores, quatro receberam penas de prisão, enquanto os outros dois foram libertados imediatamente, uma vez que o prazo de prescrição de seus casos havia expirado. O tribunal local condenou o diretor (filho do fundador da escola) a cinco anos de prisão, e outros quatro receberam penas relativamente severas. Mas o tribunal de apelações reduziu a sentença inicial, concedendo liberdade condicional e uma multa de 3 milhões de wons ao diretor e penas mais leves aos demais. Entre os presos, dois foram libertados após menos de um ano na prisão, depois que suas penas foram suspensas. Quatro dos seis professores foram reintegrados à escola. O caso não atraiu muita atenção da mídia quando foi a julgamento em 2005, mas, na época, ativistas de direitos humanos e vítimas criticaram a leniência da justiça contra os abusadores.

Lee Han-ju, então juiz do Tribunal Superior de Gwangju, disse que o caso foi resolvido entre os pais das vítimas e a direção da escola durante o julgamento, e os demandantes desistiram da ação.

O juiz comentou que “foi muito frustrante para os juízes e os promotores, mas os crimes de agressão sexual são passíveis de denúncia, o que significa que, uma vez firmado o acordo, nenhuma outra penalidade é buscada”. Em 2009, a lei foi revisada para exigir que todos os criminosos sexuais sejam processados, mesmo que a vítima não apresente queixa.

Ao contrário do esperado, a escola sobreviveu ao escândalo. As vítimas foram expulsas da instituição e, segundo relatos, foram abrigadas em centros de acolhimento. No entanto, a escola manteve 22 alunos e até 2011 continuou recebendo 1,8 bilhão de won em subsídios estatais anualmente, pois as autoridades educacionais locais não conseguiram encontrar uma instalação substituta.

O caso caiu no esquecimento até setembro de 2011, quando o filme Silenced estreou e atraiu mais espectadores do que qualquer outro do gênero drama em anos na Coreia do Sul. Boletins on-line circularam com 50 mil internautas instando as autoridades educacionais a fecharem a escola.

Campanhas públicas se mobilizaram para abolir o prazo de prescrição para crimes sexuais, que naquela época era de sete anos a partir do reconhecimento inicial do crime.

Em resposta ao clamor popular, a Agência Nacional de Polícia enviou investigadores especiais à escola para apurar uma série de questões, incluindo violações dos direitos humanos e possível fraude em contas bancárias.

Dois meses após o lançamento do filme, a cidade de Gwangju fechou oficialmente a escola em novembro de 2011.

Assim, a punição só veio depois da popularidade de Silenced. Após seis anos do julgamento, um novo inquérito foi aberto para averiguar os fatos. Além disso, a lei “dogami”, inspirada no livro de Gong Ji-young, foi criada para garantir que casos de agressão sexual contra crianças menores de 13 anos e pessoas com deficiência não tivessem prazo para prescrição.

Outras alterações foram criadas, como o aumento de penas para agressores de crianças e pessoas com deficiência e excluíram a cláusula que obrigava pessoas com deficiência a comprovarem que não tinham capacidade de defesa.

Ainda em novembro de 2011, muitas das vítimas de agressão sexual em Inhwa foram levadas ao Hospital Gangnam Severance, em Seul, e examinadas por um psiquiatra. A polícia informou que seis delas foram diagnosticadas com transtornos pós-traumáticos graves. Além disso, as investigações de 13 suspeitos foram encerradas por falta de provas, enquanto outros sete casos também foram arquivados.

Em uma entrevista para a SBS, uma das vítimas relatou que os abusos começaram no ensino fundamental e que os professores estavam cientes da situação, mas que em alguns casos eles estavam envolvidos ou mantinham silêncio.

De acordo com os dados coletados pela SBS, aproximadamente 30 alunos foram vítimas de abusos ou violência, e 10 educadores foram apontados como agressores. Entre eles, um em cada três alunos ou professores era do sexo masculino.

Uma das testemunhas, o ex-professor Kim Yeong-il, de 71 anos, afirmou ter sido espancado e forçado a se demitir em 1968 pelo diretor da escola e seu irmão, o vice-diretor, após descobrir que duas crianças haviam sido espancadas e deixadas para morrer de fome, sendo seus corpos enterrados secretamente em 1964. Outros ex-alunos alegaram que o filho do presidente do conselho administrativo da escola obrigou duas alunas a se despirem e fez retratos delas nuas em 1975, acrescentando que, naquele momento, o agressor agora lecionava arte em outra escola da cidade.

Nos processos criminais subsequentes ao lançamento do livro e do filme, vários professores se declararam culpados de acusações de abuso sexual. Em 2013, o ex-diretor, na época com 65 anos, da Escola Gwangju Inhwa foi condenado a oito anos de prisão por agredir sexualmente uma estudante surda de 18 anos em abril de 2005, seu perfil divulgado publicamente e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. Ele também foi considerado culpado de agredir fisicamente outro estudante de 17 anos que testemunhou o crime e que tentou suicídio em seguida.

Um tribunal distrital de Gwangju havia condenado Kim a 12 anos de prisão, mas um tribunal de apelações reduziu sua pena para 8 anos.


A origem do livro e da adaptação

Publicado em 2009, Dogani (também conhecido como The Crucible) é um relato romanceado, ainda que pouco disfarçado, dos incidentes reais que ocorreram em Gwangju no início dos anos 2000, descrevendo como crianças foram abusadas durante anos em uma escola para alunos surdos e com deficiência auditiva.

A história começa quando Kang In-ho, um professor de educação especial, aceita um emprego na remota cidade de Mujin, uma cidade fictícia que representa Gwangju. A mentalidade provinciana, a desconfiança que ele sente dos moradores locais em relação às pessoas da cidade grande e a neblina frequente criam uma atmosfera perturbadoramente desconfiada na história.

A escritora Gong Ji-young, em uma visita ao comitê de contra medidas, se deparou com um artigo de jornal que descrevia o que havia acontecido dentro da Escola Gwangju Inhwan e, tomada pela emoção e empatia pelas vítimas, escreveu a história para que pudesse dar voz para aqueles que sofreram os abusos e foram negligenciados pela justiça.

Gong tinha intenções claras neste romance sombrio sobre corrupção e abuso em uma pequena cidade. O título faz referência à peça As Bruxas de Salem, de Arthur Miller. Ambas as histórias retratam o cenário de um julgamento que ocorre em uma pequena cidade, com pessoas de mente fechada. Os eventos levam à histeria, à negação e a tentativas de silenciar a verdade. Há longos capítulos em Dogani que descrevem como os habitantes de Mujin suprimiram informações sobre o crime e o negaram quando a verdade veio à tona. Pessoas envolvidas são demitidas, ameaçadas e atacadas.

A autora, nascida em Seul em 1963, é popular na Coreia do Sul e em comunidades coreanas da diáspora no exterior. Ela se formou em Literatura Inglesa pela Universidade Yonsei e publicou obras de poesia, contos, romances e ensaios, concentrando sua produção em questões de injustiça, gênero e desigualdade. Gong recebeu boas críticas por Dogani, porém, também foi investigada pelos conservadores governantes do estado por “atividades políticas”.

A adaptação do livro veio após Gong Yoo, ator que interpretou Kang In-Ho, sugerir que aquela história deveria se tornar um roteiro de filme. Em uma entrevista, ele declarou que foi “tomado por uma emoção difícil de descrever. Como pessoa, fiquei comovido; como ator, senti que precisava contar essa história”.

Estrelado por Gong Yoo e Jung Yu-mi, Silenced estreou no segundo semestre de 2011 e chocou a população sul-coreana com a série de crimes que ficaram majoritariamente impunes até que a comoção pública levou à reabertura do caso real.

O filme retrata vividamente a história de professores e funcionários da Escola Gwangju Inhwa que cometeram repetidos crimes sexuais contra vários alunos ao longo de cinco anos, a partir de 2000.

A escola foi fechada, mas mesmo após toda a reviravolta e reabertura do caso, as vítimas continuaram aprisionadas em suas próprias dores, provocadas por anos de abusos e silenciamento.

O livro e sua adaptação deram espaço às vítimas que precisavam externalizar a sua dor e encontrar forças por justiça.

Por Yulle Santos
Fonte: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10)
Imagem: Yonhap
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