Seoye, a arte da caligrafia coreana, une estética, disciplina mental e identidade histórica. Desde sua consolidação com a invenção do hangul no século XV, esta prática evoluiu de um ritual meditativo exclusivo da nobreza e ferramenta de resistência cultural para se tornar uma expressão artística acessível a todos.

O Seoye (literalmente, caligrafia em coreano) começou a se popularizar na península coreana com a invenção do hangul, o alfabeto coreano, no século XV. Até então, os calígrafos usavam o hanja (caracteres chineses) para registrar sua história e arte, mas sem algo exclusivamente “coreano” na prática. O hangul permitiu o nascimento de uma nova forma de caligrafia que, ao contrário da escrita intrincada e complexa da China, tinha uma estética própria: uma beleza mais simples, porém com muita força e intenção em cada traço.
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Durante a Dinastia Joseon, Seoye conquistou o status de nobreza. Apenas aristocratas e intelectuais aprendiam e praticavam caligrafia, que era vista como um ritual de disciplina mental por demandar bastante concentração e reflexão. Seoye era um ritual repetitivo em que o escritor buscava esvaziar seus pensamentos e focar em um único objetivo: escrever bem. Acreditava-se que o coração e a mente do escritor eram refletidos em cada pincelada, exigindo que o calígrafo se tornasse “um só” com o caminho que a tinta percorria no papel.
A prática de Seoye mudou de significado ao longo dos anos. Durante a ocupação japonesa (1910-1945), a caligrafia era vista como um protesto silencioso pela preservação do hangul e uma resistência à dominação japonesa. Já hoje em dia, a caligrafia coreana é muito mais dinâmica, divertida e experimental. O ensino, antes exclusivo dos nobres, agora é aberto a todos em universidades e escolas.
A evolução também chegou aos materiais. Se no passado usavam-se exclusivamente pincéis feitos de pelo de cavalo ou doninha para criar traços delicados, hoje os artistas misturam tradição com tecnologia. É comum ver o uso de canetas tinteiro modernas (com pontas flexíveis ideais para variar a espessura da linha) e até caligrafia digital.
Artistas contemporâneos, como Ahn Sangsoo, transformaram a escrita em design, com o hangul incorporando desenhos dentro dos caracteres em uma espécie de flerte com a poesia concreta. O foco mudou da simples transmissão de uma mensagem para a criação de uma obra de arte visual.

Tipos de caligrafia para Seoye em coreano
Como Seoye é uma arte com mais de meio milênio de existência, surgiram vários estilos de escrita ao longo do tempo. Conheça alguns dos principais, que, atualmente, formam a base do Seoye:
- Jeonseo: conhecido “estilo de selo” por ser historicamente usado em carimbos e selos oficiais; é possível identificar o jeonseo por sua uniformidade na espessura e pelo espaçamento equilibrado entre linhas verticais, horizontais e curvas;
- Choseo: escrita cursiva focada na velocidade do pincel. Os caracteres fluem uns nos outros, o que torna a escrita muito bonita e expressiva, mas, às vezes, difícil de ler para iniciantes;
- Haeseo: consiste em formar “blocos” com o hangul, de forma que cada letra ocupa um espaço quadrado imaginário, ficando com uma cara mais padronizada e “quadrada”;
- Haengseo: fica entre o estilo de bloco e o cursivo, sendo fluido para escrever e, ao mesmo tempo, fácil de ler;
- Yeseo: desenvolvido a partir do estilo de selo, era uma escrita muito usada em documentos oficiais antigamente por ser mais simples de ler e escrever do que os estilos mais antigos.
Imagens: Wikimedia Commons/Teemeah/Jared Tarbell, dramasROK
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