Nos K-dramas, o figurino raramente é apenas um detalhe estético. Ele costuma funcionar como uma camada narrativa tão importante quanto a fotografia ou o roteiro. Ao longo das últimas décadas, o design de figurino se tornou uma ferramenta clara para construir personagens, expressar emoções e até marcar mudanças sociais dentro da história.
É justamente por isso que alguns K-dramas são lembrados não apenas por seus personagens ou histórias, mas pelos visuais que ajudam a defini-los. Neste artigo, vamos analisar alguns dos figurinos mais icônicos dos K-dramas e entender como cada produção usou a moda para construir identidade, emoção e narrativa dentro de suas histórias.
Hotel Del Luna

O figurino de Jang Man-Wol funciona quase como um arquivo histórico emocional. A personagem viveu mais de mil anos e seus figurinos traduzem isso de forma quase literal: cada roupa parece ter vindo de uma era diferente — do hanbok (reinterpretado) ao vintage europeu. Isso torna a narrativa mais interessante. Man-Wol parece presa no tempo, assim como sua culpa e seu ressentimento. A estética, que mistura passado e presente, faz parecer com que a personagem nunca tenha seguido em frente. Cada roupa reforça essa sensação de uma mulher que atravessou séculos, carregando consigo fragmentos de diferentes épocas.
Os figurinos utilizam elementos visuais específicos para construir essa imagem. De ombros estruturados a capas e silhuetas fortes, suas roupas criam uma imagem de imponência, mais aproximando a personagem de uma figura quase mitológica do que de alguém comum. Suas roupas também transmitem, ao longo dos mais de 100 looks utilizados, seu estado emocional. Quando aparece com roupas luxuosas e rígidas, seu visual transmite a fachada de frieza construída ao longo dos séculos. Em momentos que a ligam ao passado, suas roupas surgem de forma mais delicada e vintage. À medida que a personagem vai se permitindo se abrir emocionalmente, suas roupas vão ficando mais suaves e menos imponentes.
Goblin

Em Goblin, o figurino do personagem Kim Shin funciona como uma extensão de sua imortalidade e solidão que atravessam séculos. Mas diferente da forma com que isso é usado em Hotel Del Luna, aqui vemos uma construção estética contínua e quase atemporal. Sua estética é marcada por casacos longos, tecidos mais pesados e uma paleta fria (tons de cinza, marinho e vinho), construindo uma silhueta única: elegante, porém, distante. Traduzindo um personagem que está meio deslocado no tempo, alguém que caminha sempre entre o passado e o presente sem realmente pertencer a nenhum dos dois.
O figurino transmite uma contenção emocional e melancólica, reforçando a ideia de que o personagem já viveu demais, perdeu demais e aprendeu a carregar tudo isso com uma calma quase pesada. As roupas não tentam impressionar, mas ajudam a contar o peso do tempo que carregam.
The Legend of the Blue Sea

Em The Legend of the Blue Sea o grande desafio do figurino era responder a seguinte pergunta: como vestir alguém que literalmente não pertence ao mundo humano? E essa é a pergunta que orienta a construção visual de Shim Cheong por toda a história.
No início do K-drama, suas roupas parecem deslocadas do contexto social em que vive. As cores são mais claras, os tecidos e silhuetas fluídas (como se saídos do mar), fazendo com que a personagem pareça sempre “fora de lugar”, como alguém que ainda não entendeu completamente as regras daquele mundo, em contraste com as roupas de Joon Jae, que usa figurinos mais sofisticados e bem estruturados, mostrando que está totalmente integrado e adaptado ao mundo humano. Conforme Shim Cheong passa a entender as regras do mundo em que está vivendo agora, suas roupas evoluem, tornando-se mais estruturadas e com uma paleta de cor que remete a uma moda mais urbana e sul-coreana.
Can this Love be Translated?

A personagem Oh Mi Joo é apresentada como alguém ligada ao universo do cinema e da cultura internacional. Seu figurino muitas vezes transita entre silhuetas modernas da moda sul-coreana combinadas com elementos da moda internacional, mostrando que a personagem transita entre idiomas e culturas diferentes. Sua profissão e identidade não estão limitadas a um único espaço e o figurino ajuda a transmitir isso. Assim como ajuda a transmitir a ideia do papel de Ki Seon Gyeom como tradutor. O uso de roupas mais funcionais e de uma paleta mais discreta, traduz o personagem como alguém que está ali como uma ponte entre culturas, ajudando na comunicação e conexão entre pessoas e não como alguém que quer ocupar o centro das atenções.
Mr. Sunshine

Considerado um dos melhores trabalhos de figurinos históricos já feitos, Mr. Sunshine usa o figurino não apenas como ambientação histórica, mas quase como uma declaração política. Cada personagem representa, dentro daquele contexto histórico, uma posição social diferente. Go Ae-shin, por exemplo, usa hanboks elegantes e tradicionais, mas sem cair nos exageros aristocráticos, comunicando uma personagem que faz parte da elite, porém, não quer sua imagem construída através do poder e sim de alguém com forte convicção e consciência.
Outro importante elemento foram as roupas ocidentais, trazendo a ideia de choque entre a tradição coreana e a modernização ocidental. O figurino expressa isso de maneira bastante visual, com ternos em estilo americano, uniformes militares e vestidos ocidentais convivendo mutuamente com a peça tradicional coreana: o hanbok. Este contraste ajuda na percepção de que o país está passando por uma profunda transformação, não apenas política, mas na aparência cotidiana das pessoas. Os figurinos de Mr. Sunshine não traduzem apenas os personagens de forma individual, mas toda uma mudança histórica em um país inteiro.
Under the Queen’s Umbrella

O figurino da personagem Im Hwa Ryeong foge dos padrões comuns em dramas de época onde a rainha aparece apenas como símbolo de status. Aqui, suas roupas mostram uma narrativa diferente: ela é uma das jogadoras políticas ativas dentro da corte. Seus hanboks são estruturados, transmitindo autoridade, controle e inteligência estratégica. As silhuetas são firmes, bem definidas, reforçando sua presença nos ambientes de poder.
Conforme o arco narrativo da personagem vai evoluindo, suas roupas fazem o mesmo. Se no início da história suas roupas são mais rígidas e formais, reforçando o seu papel institucional dentro da corte, conforme a trama vai avançando e ela passa a proteger de forma ativa seus filhos em meio às disputas pelo trono, seus figurinos vão mudando sutilmente, ganhando mais movimento, e cores mais quentes começam a aparecer com mais frequência, mostrando que ela é mais do que uma governante, ela é uma mãe. Portanto, o figurino constrói uma narrativa clara ao longo da série: primeiro o poder institucional e depois o poder emocional.
Imagens: IMDB, FILMGRAB, Pinterest, TMDB
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