A atriz sul-coreana Ha Young pediu desculpas nesta quarta-feira (12), depois que registros históricos relacionados ao seu bisavô, o médico Ahn Sang Ho, vieram à tona e provocaram uma controvérsia sobre seu suposto envolvimento com uma organização pró-japonesa durante o período colonial da Coreia.
A polêmica começou depois que Ha Young falou sobre sua família em Problem Child in House, um programa da KBS, e apresentou seu bisavô como uma figura de orgulho familiar. Dias depois, internautas identificaram o médico como Ahn Sang Ho e passaram a compartilhar registros históricos que mostram seu nome entre os membros do conselho da Daejeong Chinmokhoe, em 1916.
A situação se agravou porque a agência da atriz, Bistus Entertainment, inicialmente negou as alegações, classificando-as como infundadas. No dia seguinte, porém, a empresa reconheceu que o registro histórico existia e pediu desculpas pela resposta precipitada.
Nesta quarta-feira, a atriz decidiu se manifestar pessoalmente e publicou uma carta escrita à mão em seu perfil no Instagram.
Como tudo começou
A repercussão começou após a participação de Ha Young no programa da KBS Problem Child in House, exibido na sexta-feira (07). Ao falar sobre a história de sua família, a atriz contou que havia quatro gerações de médicos entre seus familiares e descreveu a trajetória de seu bisavô, afirmando que ele havia estudado medicina ocidental no Japão, aberto uma das primeiras clínicas de medicina ocidental em Seul e tratado o Imperador Gojong.
Os telespectadores identificaram o médico mencionado como Ahn Sang Ho e começaram a compartilhar registros relacionados à sua atuação durante o domínio colonial japonês. Entre os documentos estava um registro de 1916 que apontava Ahn como membro do conselho da Daejeong Chinmokhoe, também conhecida como Associação de Amizade Taishō.
A organização foi formada em Seul em 1916 e é descrita como uma sociedade pró-japonesa. O nome Taishō fazia referência à era do imperador japonês que governava o país naquele período.
A descoberta provocou fortes críticas nas redes sociais, principalmente porque Ha Young havia falado do bisavô como motivo de orgulho familiar. Comentários publicados on-line acusaram a família de não demonstrar vergonha diante do passado atribuído ao médico e questionaram como a atriz poderia ter apresentado sua trajetória de maneira positiva.
Inicialmente, a Bistus Entertainment negou as alegações, porém, após revisar os registros históricos, a agência mudou sua posição e confirmou que o nome de Ahn Sang Ho realmente aparecia na lista de membros do conselho da Daejeong Chinmokhoe de 1916.
A agência declarou:
Após uma verificação mais detalhada, confirmamos que os registros de seu bisavô, Ahn Sang Ho, como conselheiro da Daejeong Chinmokhoe em 1916 realmente existiram.
Pedimos sinceras desculpas pela confusão causada pela nossa resposta precipitada de que a alegação era infundada, sem verificação suficiente.
A empresa também explicou que Ha Young havia mencionado as quatro gerações de médicos de sua família enquanto respondia a uma pergunta durante o programa e que a controvérsia surgiu de maneira involuntária. Segundo a agência, a atriz passou a tratar a situação com seriedade e pretende abordar questões relacionadas à história com mais cautela e humildade.
O pedido de desculpas
Em 12 de agosto, Ha Young publicou uma carta escrita à mão em sua conta pessoal no Instagram. A atriz afirmou que até então conhecia a trajetória do bisavô apenas por meio de histórias transmitidas oralmente dentro da família e reconheceu que falou sobre ele em diferentes ocasiões como se fosse motivo de orgulho familiar, sem conhecer adequadamente seu passado durante o período colonial japonês.
Ha Young também assumiu responsabilidade pela declaração inicial da agência, afirmando que seu próprio desconhecimento permitiu que uma posição incorreta fosse divulgada sem a devida verificação. A atriz disse ainda que demorou a se manifestar porque estava profundamente perturbada e não sabia como expressar adequadamente seu pedido de desculpas diante da gravidade da situação.
Confira a tradução na íntegra do que Ha Young escreveu.
Aqui é a Ha Young.
Antes de mais nada, inclino a cabeça em sinal de desculpas pela decepção e dor que causei devido a questões relacionadas ao meu bisavô. Recentemente, ao tomar conhecimento das ações passadas do meu bisavô Ahn Sang Ho, tenho refletido sobre a história da minha família com o coração pesado.
Até então, eu só conhecia a vida do meu bisavô por meio de fragmentos, baseados em histórias transmitidas oralmente na minha família. Para minha vergonha, eu falava dele em diversas ocasiões como se ele fosse motivo de orgulho familiar, enquanto permanecia em tamanha ignorância.
Por meio desse incidente, passei pelo processo de pesquisar materiais relevantes por conta própria e descobri as atividades pró-japonesas do meu bisavô. Lamento profundamente ter falado da história da minha família de forma tão leviana, sem compreender adequadamente a dolorosa história do nosso país durante o período colonial japonês.
Além disso, quando a controvérsia surgiu, eu mesmo desconhecia os fatos exatos, o que levou a agência a divulgar uma declaração afirmando que as reportagens eram “infundadas”. Acredito que foi minha própria falha que permitiu que tal declaração incorreta fosse divulgada sem a devida verificação. Peço sinceras desculpas pela grande confusão e mágoa que isso causou.
Peço desculpas repetidamente pela demora em expressar minha posição, pois estava profundamente perturbada e tive dificuldades em encontrar as melhores maneiras de transmitir minhas sinceras desculpas, dada a gravidade da situação.
Reconheço que o fato de desconhecer esses fatos não justifica ignorar ou tratar essa história com leviandade. Reconheço esses erros com pesar e, como descendente, apresento minhas sinceras desculpas. Sinto ainda mais remorso por ter causado problemas devido às minhas falhas durante o período que antecede o Dia da Libertação Nacional.
Guardarei este incidente profundamente em meu coração. Analisarei cuidadosamente a história da minha família e daquela época e adotarei uma postura mais cautelosa em relação à história no futuro. Além disso, estudarei nossa história a fundo e farei o possível para servir com respeito aos ativistas da independência e a todos que se dedicaram à libertação e ao bem-estar do nosso país. Demonstrarei isso não apenas com palavras, mas com ações.
Mais uma vez, peço sinceras desculpas a todos que se preocuparam com isso.
Atenciosamente,
Ha Young
A família
O pai de Ha Young também se manifestou sobre a controvérsia em entrevista ao Ilgan Sports. Ele pediu desculpas pelo desconforto causado pela questão e afirmou que todos os integrantes da família estavam levando o assunto a sério, especialmente porque a controvérsia surgiu poucos dias antes do Dia da Libertação Nacional, celebrado em 15 de agosto.
Ele também explicou que a família conhecia uma história diferente sobre a relação de Ahn Sang Ho com o Príncipe Imperial Ui, segundo filho do Imperador Gojong. De acordo com o pai da atriz, essa narrativa familiar influenciou a reação inicial da família diante das alegações de envolvimento de Ahn com atividades pró-japonesas.
Em sua declaração, ele afirmou:
Sinto-me apologético por causar desconforto a muitas pessoas em relação a essa questão. Especialmente porque esse problema, que diz respeito à importância da história do período colonial japonês, surgiu antes do Dia da Libertação, 15 de agosto. Todos os membros da família estão levando essa questão muito a sério.
Como descendente, sinto-me de coração pesado por existirem tais registros.
A história sobre o relacionamento de Ahn Sang Ho com o Príncipe Imperial Ui passou por gerações da família, influenciando a negação inicial em relação à controvérsia sobre a atividade pró-japonesa de meu avô.
No livro Pioneiros da Medicina Moderna Coreana, o autor perguntou sobre a teoria de que Ahn Sang Ho envenenou o Imperador Gojong. O Príncipe Imperial Ui afirmou: ‘Eu o servi (o Imperador) até ele falecer, isso não faz sentido algum. É porque, naquela época, todos estavam cheios de mal-entendidos, indignação e tristeza pelo colapso da nação’.
Pelo que entendo, o Príncipe Imperial Ui é uma figura histórica que fortemente demonstrou resistência ao domínio japonês. Como meu avô era responsável pelo cuidado médico do príncipe enquanto trabalhava na Universidade Médica Jikei de Tóquio, ele decidiu retornar à Joseon após a recomendação do príncipe.
Então, nunca imaginei que ele pudesse ser implicado em uma controvérsia pró-japonesa.
A declaração também trouxe novamente à discussão um antigo rumor de que Ahn Sang Ho teria participado do envenenamento do Imperador Gojong. O historiador Shim Yong-hwan, no entanto, afirmou que essa acusação não é comprovada e que o rumor teria contribuído para o sentimento de indignação que antecedeu o Movimento de 1º de Março de 1919.
O debate sobre Ahn Sang Ho
A controvérsia acabou ultrapassando a discussão sobre a família de Ha Young e reacendeu um debate maior na Coreia do Sul sobre a forma como colaboradores do período colonial devem ser identificados e até que ponto seus descendentes devem ser responsabilizados ou associados às ações de seus antepassados.
O historiador Shim Yong-hwan, chefe do Instituto de História e Educação Shim Yong-hwan, considerou perigoso classificar Ahn Sang Ho de maneira simplificada apenas com base em sua participação em uma organização. Segundo ele, embora existam registros que precisam ser analisados, não seria correto transformar automaticamente a filiação a uma organização em prova suficiente de todos os tipos de colaboração.
Shim também afirmou que Ahn fazia parte da elite de sua época e que sua participação na Daejeong Chinmokhoe e em outras organizações com apoiadores do Japão é um elemento relevante de sua trajetória. Para ele, porém, a análise histórica precisa distinguir entre a existência de vínculos e a comprovação de atos específicos de colaboração.
Segundo o historiador:
É verdade que, no final da vida, ele não era alguém que devesse ser reverenciado, visto que pertencia à elite de sua época, era membro de organizações com muitos apoiadores do Japão, incluindo a Daejeong Chinmokhoe, e as autoridades japonesas usaram sua família para promover sua administração colonial.
Mas rotulá-lo como ‘colaborador’ com base unicamente em sua filiação a uma determinada organização, sem evidências claras de atos colaboracionistas, é uma ideia perigosa.
O ponto importante é que, se rotularmos alguém como ‘colaborador pró-japonês’ com muita facilidade, muitas pessoas do nosso passado acabarão sendo rotuladas dessa forma e, no fim, o próprio padrão do que constitui colaboração e o que devemos criticar e lembrar poderá desaparecer.
Assim como a culpa por associação é errada, as conquistas de um ancestral não são suas. Precisamos finalmente chegar a uma conclusão sobre até onde a categoria de ‘descendente de um lutador pela independência’ deve ir e quais direitos e responsabilidades devem advir dela.
O debate também levou internautas e figuras públicas a discutirem se os descendentes de colaboradores deveriam carregar algum tipo de responsabilidade moral pelas ações de seus familiares. Um dos críticos da família foi o romancista So Jae-won, que questionou nas redes sociais como descendentes de colaboradores pró-japoneses poderiam se orgulhar de seus antepassados caso a Coreia tivesse punido de maneira mais efetiva os colaboradores após a libertação.
Os esforços para responsabilizar colaboradores do período colonial foram interrompidos em 1949, e a questão permanece controversa na sociedade sul-coreana. Por isso, casos envolvendo celebridades e seus antepassados frequentemente provocam reações particularmente intensas.
Outros casos
A situação de Ha Young também trouxe de volta casos semelhantes envolvendo outras celebridades sul-coreanas. A atriz E Ji-ah, por exemplo, enfrentou críticas por mais de uma década devido às atividades atribuídas ao seu avô, Kim Sun-heung, durante o domínio colonial japonês.
Kim aparece no Dicionário de Colaboradores Pró-Japoneses, publicado em 2009 pelo Centro para a Verdade Histórica e a Justiça. Em fevereiro de 2025, E Ji-ah publicou seu primeiro pedido público de desculpas sobre a controvérsia desde que o assunto veio à tona anos antes, afirmando que viveria com um senso de responsabilidade.
Outro caso lembrado foi o do ator Kang Dong Won, que enfrentou uma controvérsia envolvendo seu bisavô, Lee Jong-man, empresário e magnata da mineração de ouro acusado de atividades pró-japonesas durante o período colonial. Uma entrevista de 2007 voltou a circular anos depois, na qual o ator falava positivamente sobre o familiar.
Kang, posteriormente, pediu desculpas e afirmou que havia crescido ouvindo apenas relatos positivos sobre seu bisavô. Ele disse também que tomou conhecimento do passado do familiar e que a experiência o fez perceber a necessidade de estudar mais sobre a história e continuar refletindo sobre ela.
A repercussão na carreira
A controvérsia também começou a afetar os compromissos profissionais de Ha Young, com uma entrevista coletiva relacionada a Our Sticky Love, marcada para sexta-feira (14), sendo cancelada na terça-feira (12).
A posição da atriz no elenco de The Long Shot Trial, próximo drama da SBS estrelado por Lee Je Hoon e previsto para estrear em 2027, foi questionada e a emissora afirmou na terça-feira (11) que estava acompanhando a controvérsia envolvendo a atriz.
A emissora declarou:
The Long Shot Trial já concluiu uma parte significativa das filmagens. Pedimos a sua compreensão, pois é difícil fornecer detalhes específicos sobre a quantidade de filmagens realizadas ou o progresso exato da produção neste momento.
Estamos cientes do assunto e acompanhando de perto o desenvolvimento da situação. Se houver alguma atualização, compartilharemos com vocês.
O novo k-drama é descrito como uma comédia jurídica que acompanha os integrantes de um escritório de advocacia liderado por Kwon Baek, um ex-advogado que agora trabalha como gerente e aceita casos aparentemente impossíveis de vencer.
A controvérsia envolvendo Ha Young acontece poucos dias antes do Dia da Libertação Nacional da Coreia, celebrado em 15 de agosto e marcado pelo fim do domínio colonial japonês em 1945. O momento contribuiu para aumentar a repercussão do caso e reacender discussões sobre colaboração, memória histórica e a responsabilidade atribuída aos descendentes.
por Alice Rodrigues
Fonte: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7)
Imagem: Bistus Entertainment
Não retirar sem os devidos créditos.