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Conheça Pohang, a cidade de aço que inspira a ficção de Bora Chung

Pohang, cidade localizada na costa leste da Coreia do Sul, é conhecida por uma combinação única que inclui praias e vilas de pescadores, que dividem espaço com enormes complexos industriais e centros de pesquisa científica. Foi justamente essa mistura entre natureza, tecnologia e trabalho que chamou a atenção da escritora Bora Chung, autora de Coelho Maldito e Your Utopia (Sua Utopia).

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Nascida em Seul, em 1976, Chung é conhecida por misturar ficção científica, terror, fantasia e crítica social em histórias que frequentemente abordam trabalho, desigualdade, violência e relações de poder. Sua produção ganhou reconhecimento internacional quando Coelho Maldito foi finalista do International Booker Prize, em 2022, e do National Book Award, em 2023. Depois de anos vivendo entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos, a autora se mudou para Pohang após seu casamento e a cidade passou a aparecer cada vez mais em sua produção literária.

O cenário da cidade parece ter sido criado para uma história de ficção científica em que, de um lado, estão o mar e os pinheiros, e do outro, os altos-fornos e as chaminés da POSCO, uma das maiores produtoras de aço do mundo. A cidade também abriga a POSTECH e o Pohang Accelerator Laboratory, com instalações dedicadas a pesquisas científicas avançadas. É justamente esse contraste que parece fascinar a autora: um lugar onde o passado industrial e um futuro altamente tecnológico existem lado a lado.


Pohang, a cidade de aço

A transformação de Pohang começou principalmente com a criação da POSCO, em 1968. A construção do complexo siderúrgico transformou uma antiga região de pequenas comunidades pesqueiras em um dos principais polos industriais da Coreia do Sul. A empresa passou a ocupar uma enorme área da cidade com altos-fornos, tubulações, esteiras e outras estruturas necessárias à produção de aço.

Durante a noite, a paisagem fica ainda mais impressionante. As luzes do complexo industrial iluminam a Baía de Yeongil, criando uma espécie de cidade futurista formada por estruturas metálicas. Para Chung, essa visão possui um aspecto quase misterioso, com as máquinas gigantescas funcionando continuamente, em uma escala que ultrapassa a compreensão de quem observa tudo de fora.

A indústria também ajudou a financiar o desenvolvimento científico da região. Em 1986, foi fundada a POSTECH, uma universidade voltada para a ciência e a tecnologia, e Pohang passou a receber instalações de pesquisa cada vez mais sofisticadas. O Pohang Accelerator Laboratory, por exemplo, opera equipamentos utilizados para estudar materiais e fenômenos em escalas extremamente pequenas.

A cidade passou, assim, a representar dois lados do progresso tecnológico. Enquanto a POSCO transforma minério em aço em escala gigantesca, os laboratórios investigam partículas, materiais e tecnologias que podem definir o futuro.


Do trabalho aos alienígenas

A relação de Chung com Pohang também está ligada à sua experiência com movimentos trabalhistas. Durante anos, a autora participou de manifestações e protestos relacionados a direitos trabalhistas e a outras questões sociais, e esse interesse aparece frequentemente em seus livros.

Um dos exemplos mais claros é Surrender, Earthlings, antologia publicada originalmente em 2024. As histórias utilizam criaturas marinhas para falar sobre trabalho, exploração e relações de poder. Em um dos contos, uma manifestação sindical é interrompida por alienígenas que assumem a forma de polvos e anunciam a rendição da humanidade. A situação, em vez de se transformar em uma batalha interplanetária, é tratada com o humor absurdo característico da autora.

Os animais marinhos também aproximam a obra da identidade de Pohang. O Mercado de Jukdo, um dos principais mercados de peixes e frutos do mar da cidade, aparece como inspiração para histórias em que criaturas normalmente tratadas como mercadorias ganham voz e passam a discutir questões relacionadas à exploração e à sobrevivência.

A Praia de Songdo também aparece na obra de Chung. Em Shark, a paisagem do litoral é transformada em um espaço quase sobrenatural, onde um tubarão extraterrestre se mistura a uma história sobre doença, família e mortalidade. A praia, portanto, deixa de ser apenas um lugar bonito e passa a funcionar como uma fronteira entre o cotidiano e o fantástico.

Esse é um dos aspectos mais interessantes da literatura de Chung: os seus monstros não precisam aparecer em lugares distantes ou completamente imaginários. Eles podem surgir em um mercado, em uma universidade, em uma fábrica ou em uma praia perfeitamente real.


Quando o futuro dá errado

A história recente de Pohang também possui acontecimentos que parecem saídos de uma ficção científica. Em 2017, a cidade sofreu um terremoto de magnitude 5,4. Investigações posteriores concluíram que a atividade de um projeto de energia geotérmica havia contribuído para desencadear o tremor, depois que a injeção de água em grandes profundidades alterou a pressão de uma falha geológica.

O caso é uma contradição bastante próxima dos temas de Chung: uma tecnologia desenvolvida para produzir energia de maneira mais limpa acabou contribuindo para um desastre que afetou milhares de pessoas.

Em 2022, Pohang enfrentou outra grande catástrofe quando o tufão Hinnamnor provocou fortes chuvas e inundações, atingindo inclusive o complexo da POSCO. A água invadiu as instalações industriais e interrompeu a produção, que só foi completamente recuperada depois de 135 dias de trabalho.

Esses acontecimentos mostraram uma das principais características da cidade, pois, por mais avançada que seja sua tecnologia, continua vulnerável às forças naturais. O aço, símbolo da capacidade humana de transformar o ambiente, não foi suficiente para impedir que a água e a terra interrompessem o funcionamento de uma das maiores estruturas industriais da Coreia do Sul.

Atualmente, a POSCO tenta transformar esse modelo industrial com tecnologias como o HyREX, que utiliza hidrogênio na produção de ferro para reduzir as emissões de carbono. A proposta é tornar a siderurgia mais compatível com as metas ambientais do futuro.

Essa busca por uma “indústria do futuro” também conversa com Your Utopia. Na obra, Chung imagina sociedades em que tecnologias extremamente avançadas coexistem com problemas como exploração, desigualdade e destruição ambiental. O título questiona justamente a ideia de que uma sociedade tecnologicamente avançada seja necessariamente uma sociedade melhor.


Uma cidade que parece ficção científica

Além da indústria e dos laboratórios, Pohang possui construções que parecem pertencer a um futuro imaginado. A mais famosa delas é o Space Walk, uma enorme estrutura de aço instalada no Parque Hwanho. Com 333 metros de comprimento e 717 degraus, a obra permite que seus visitantes caminhem sobre uma estrutura elevada com vista para o mar e para a cidade.

De cima, é possível observar a paisagem costeira e, ao mesmo tempo, o gigantesco complexo da POSCO. A obra reúne em um único ponto os principais elementos que definem Pohang: aço, ciência e mar.

Outro exemplo da relação da cidade com a obra de Chung está em Midnight Timetable, livro publicado originalmente na Coreia do Sul e inspirado, entre outras coisas, pelo ambiente noturno de Pohang. A narrativa mistura histórias de fantasmas, pesquisa científica e acontecimentos sobrenaturais para falar de pessoas e problemas que normalmente permanecem invisíveis.

Pohang, portanto, acabou se tornando muito mais do que a cidade onde Bora Chung vive. Seu litoral, suas fábricas, seus mercados, seus laboratórios e até seus desastres fornecem elementos para uma literatura que transforma situações reais em ficção científica, terror e fantasia.

Entre as luzes da POSCO e o mar do Leste, a cidade parece representar o próprio universo de Chung: um lugar em que o futuro já chegou, mas trouxe consigo todas as contradições do presente. É nessa paisagem de aço, tecnologia, natureza e trabalho que a autora encontra matéria-prima para imaginar seus alienígenas, fantasmas e sociedades distópicas e, ao mesmo tempo, falar de problemas que estão muito mais próximos da realidade do que parecem.

por Alice Rodrigues
Fontes: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), 13
Imagens: Hyeyoung, Yonhap, Jung Yeon-je/AFP
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