Os Assassinatos em Série de Hwaseong (renomeados oficialmente na Coreia do Sul como o Caso de Assassinatos em Série de Lee Choon-jae) constituem um dos episódios mais sombrios e complexos da história criminal global. Durante mais de três décadas, o caso permaneceu como o maior enigma não resolvido do país, capturando a atenção do público pela brutalidade dos crimes e pelo persistente sentimento de medo e impunidade que gerou na sociedade.
Os crimes ocorreram entre 15 de setembro de 1986 e 3 de abril de 1991, em áreas rurais de Hwaseong, província de Gyeonggi. Naquela época, a Coreia do Sul vivia sob uma ditadura militar em transição para a democracia, e a polícia local carecia de recursos e tecnologia para lidar com crimes em série. No total, dez mulheres, com idades entre 13 e 71 anos, foram assassinadas. O modus operandi era cruel: o criminoso emboscava as vítimas em campos de arroz ou em vielas escuras, as amarrava, amordaçava e estrangulava com as suas próprias peças de roupa (como meias-calças ou blusas). Houve também graves casos de mutilação e violação dos corpos.
Na época, à medida que os meses passavam e o número de vítimas subia para cinco, o terror se instalou na região. Sem qualquer progresso nas investigações, os moradores locais, tomados pelo desespero, chegaram a erguer um espantalho no meio dos campos de arroz como um talismã para tentar afastar o assassino.

Somente após o quinto homicídio, a polícia percebeu que os casos ocorreram em um raio de 2 km e, pelas características, era provável que tivessem um só autor. Foi então instaurada uma força-tarefa com policiais vindos de Seul e de outras regiões da Província de Gyeonggi para trabalhar no caso.
No entanto, a falta de estrutura impactou o trabalho dos agentes: a Coreia do Sul não dispunha de tecnologia para exames de DNA, e a principal pista era o tipo sanguíneo do criminoso, erroneamente identificado na época como tipo B. Cerca de 20 mil homens foram investigados, tendo cabelos, saliva e impressões digitais coletados. Sem tecnologia para processar o volume de dados, os peritos analisavam as digitais a olho nu. Diante da escassez de provas científicas, a investigação caiu em um beco sem saída.
Um morador local, que na época tinha cabelos bem compridos e usava uma blusa de frio que, segundo ele, era feminina, cruzou o caminho do criminoso quando este buscava mais uma vítima. Ao ir a caminho do banheiro de um restaurante, o morador percebeu que estava sendo seguido e, ao confrontar o suspeito, conseguiu ver seu rosto. Ele chegou a correr atrás do agressor, que conseguiu escapar. Mesmo assim, a situação foi importante na investigação já que esse morador confirmou que o retrato falado e as características identificadas anteriormente estavam corretos.
Contudo, a pressão pública por respostas levou a polícia a cometer um erro trágico após o oitavo assassinato, cuja vítima era uma jovem de 14 anos. As autoridades prenderam Yoon Sung-yeo, um jovem de 22 anos que possuía deficiência física decorrente da poliomielite. A polícia justificou a prisão alegando que Yoon tinha sangue tipo B e resíduos de titânio no cabelo (metal condizente com seu trabalho mecânico), enquanto a imprensa noticiava que ele teria agido por “ódio às mulheres” devido à sua condição física.
Yoon foi forçado a confessar um crime que não cometeu.
Ele passou 20 anos na prisão injustamente, sendo libertado apenas em 2009. A declaração formal de sua inocência só veio em novembro de 2020, 13 meses após a confissão de Lee Choon-jae. Yoon recebeu uma compensação financeira do governo.
A identidade do verdadeiro culpado
O mistério de Hwaseong só começou a ser desvendado em setembro de 2019, 28 anos após o último assassinato. Graças aos avanços na ciência forense que permitiram a restauração de amostras antigas de DNA fragmentado, testes laboratoriais ligaram o perfil genético encontrado nas roupas de três vítimas a um homem já encarcerado por homicídio: Lee Choon-jae.

Lee já cumpria pena de prisão perpétua em Busan pelo estupro e assassinato de sua cunhada, cometidos em 1994. Vindo de uma família influente e abastada, ele tinha um histórico de extrema violência doméstica. Na época das investigações em Hwaseong, Lee chegou a ser interrogado pela polícia, mas foi liberado porque seu tipo sanguíneo real era tipo O — o que blindou o verdadeiro culpado devido ao erro de tipagem sanguínea cometido na perícia inicial dos anos 1980.
Diante das evidências irrefutáveis de DNA, Lee Choon-jae confessou não apenas os dez assassinatos de Hwaseong, mas também outros quatro homicídios desconhecidos pela polícia, além de cerca de trinta estupros. Como os crimes já haviam prescrito pelo antigo código penal sul-coreano, ele não pôde ser julgado novamente por eles, permanecendo preso pelo crime de 1994. No entanto, o impacto do caso foi tão profundo que levou à abolição definitiva do prazo prescricional para homicídios dolosos na Coreia do Sul. Hoje, as vítimas de Hwaseong não são mais lembradas pelo medo, mas sim pela justiça tardia, simbolizada em um memorial erguido em sua honra em 2019.
Imagens: Prime Vìdeo, CNA Insider, KMIB
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