18 de Maio: O Massacre de Gwangju e o Movimento Democrático Coreano

36 anos após o levante que pavimentou a democracia na Coreia, o país segue como uma das democracias mais consolidadas do mundo, mas as marcas dos protestos ainda continuam.
A Democracia no Brasil percorreu um longo caminho para chegar onde está atualmente e na Coreia do Sul não foi diferente. Com o fim da guerra civil nos anos 1950, o país passou por um regime ditatorial, que ao mesmo tempo rígido, foi o que trouxe as políticas de desenvolvimento que levaram o país para onde está hoje. Com o custo do sacrifício da população, que tinham poucos direitos trabalhistas, o país se desenvolveu no regime de Park Chung-Hee.

O ditador manteve o país com pulso firme, e é lembrado até hoje por sua disciplina em público. Mesmo após sua esposa ser assassinada na sua frente, Park continuou a discursar enquanto os seguranças prendiam o assassino. Park Chung-Hee é o pai da atual presidente sul-coreana Park Geun-Hye, que usou como exemplo o governo do pai, prometendo crescimento ao país.
Os anos 1980 foi marcado por um processo de democratização pelo mundo inteiro, com ditaduras chegando ao fim na América Latina e na Ásia. A Coréia do Sul seguiu a onda do processo democrático, e em Maio, na cidade de Gwangju, foi iniciado uma série de levantes que duraram pouco mais de uma semana, e ajudaram a pavimentar a democracia no país.

População protestando em Gwangju 

Em torno de 250 mil pessoas participaram do levante, que foi brutalmente reprimido pelo governo em gestão. O movimento é considerado o pivô da luta democrática no país. O descontentamento da população podem ser traçados desde o governo de Syngman Rhee, que sempre governou o país com mão firme, e desse momento em diante, o país viu golpes sucessivos no controle do governo.

Polícia indo em direção a manifestantes 

Protestante sendo arrastado por policial durante protesto 

O último, e que desencadeou uma instabilidade política no país, foi o assassinato de Park Chung-Hee. O governo que assumiu, se mostrou mais despótico e autoritário que o anterior, e os desejos de democracia entre a população se afloraram, principalmente entre a população mais jovem. Os protestos surgiram a partir da aplicação de lei marcial no país, pois com a morte de Park Chung-Hee, ativistas pro democracia tinham a esperança da instauração de um governo popular. Chun Doo-hwan, então presidente, aplicou a lei marcial, o que significava que aglomerações populares em lugares públicos e movimentações sem aprovação prévia do governo estavam completamente proibidas.
O Brasil viveu algo similar com os Atos Institucionais (conhecidos como AI) que cortavam direitos da população e aumentava o peso do governo sobre o povo. Na Coréia, Chun Doo-hwan prendeu seus adversários políticos, espalhando pelo país o temor e a repressão. A ditadura era apoiada pelos EUA (caso parecido com o Brasil), que tinha com preferência, governos autoritários e anti-comunistas, do que ditaduras, que estavam abertas a mudanças e livre associação com países inimigos no período de guerra fria.
A complacência dos EUA foi revelada com a liberação de documentos em que o governo americano aprovava o governo sul-coreano de usar forças militares para dissolver a rebelião popular, o que facilitou o massacre em Gwangju.

Os americanos sabiam do sentimento anti-americano entre os movimentos pró-democracia e preferiam manter um bom relacionamento com o governo sul-coreano, então não se pronunciaram sobre o que estava acontecendo dentro do país.

Manifestantes são atacados por bombas de efeito moral

Exército atacando manifestantes com bombas de efeito moral
Os protestos começaram de 18 de maio e seguram até o dia 27, mas a democracia não veio logo em seguida com a abertura do governo. 

No Brasil, a ditadura acabou em 1985, mas na Coréia, a luta continuou por mais 5 anos até que no início do anos 1990, Chun Doo-hwan saiu do cargo e abriu espaço para eleições.
O número de mortos não é exato, mas estima-e que mais de duas mil pessoas tenham morrido nos confrontos, por fontes não oficiais, enquanto fontes oficiais estimam que apenas 170 morreram.

Caixões de vítimas dos ataques promovidos pelo exército e polícia

 Mães de luto pela morte dos filhos 
O motivo dos protestos terem começado especificamente em Gwangju, na região de Jeolla (atualmente dividia em Jeolla do Norte e Jeolla do Sul), também se deve ao regionalismo. A população da região se sentia abandonada pelo governo central, e que tinha se favorecido muito pouco da industrialização no país. Até nos dias de hoje, Jeolla ainda não é uma das regiões mais ricas do país. A população tinha um sentimento de que desde o presidente Park Chung-Hee, a região de Gyeongsang foi a que mais se beneficiou com o rápido crescimento do país.
Em Gwangju, o dia 18 de maio ainda é lembrado em reconhecimento as vítimas dos protestos.
Em 2013, o grupo de k-pop SPEED, lançou a versão drama da música “That’s my Fault + It’s Over” que faz alusão aos acontecimentos e relembra as vítimas dos protestos.
Veja também o documentário “The Fight for Democracy” feito pela Pacific Century.
Por Caio Garcia
Não retirar sem devidos créditos
Publicitária, redatora e diretora de arte, sou CEO e fundadora da KoreaIN, a primeira revista brasileira sobre música e cultura asiática.
  • Lair Amaro

    Ontem eu assisti ao filme “O motorista de táxi” que também aborda essa revolta. O filme é muito bom.