Kim Yo-Jong: conheça a trajetória da irmã mais nova de Kim Jong-un

(Crédito: Yonhap)

Desde sua fundação, a Coreia do Norte tem tido desavenças com a vizinha e “irmã” do Sul. As diferenças históricas entre ambas seguem vivas mesmo após quase 70 anos da Guerra da Coreia (25 de junho de 1950 – 27 de julho de 1953), combate sangrento que terminou com a separação dos países na península, mas nunca oficialmente finalizada, visto que não houve um tratado de paz, basicamente uma Guerra Fria que dura mais de meio século.



O resultado de dois estados independentes foi duas formas diferentes de governar, enquanto o Sul preferiu estabelecer uma democracia, o Norte aderiu a um governo democrático juche (termo coreano para autossuficiente), comandado pelo líder supremo Kim Il-Sung. Após seu falecimento em 1994, o poder foi passado para seu herdeiro, Kim Jong-il. Este teve três filhos e duas filhas: Kim Jong-nam (assassinado em 2017), Kim Sol-song, Kim Jong-chul, Kim Jong-un (líder em exercício) e a caçula Kim Yo-Jong.

Pouco se sabe de verdade sobre a família, a dificuldade de comunicação entre a Coreia do Norte e outros países – especialmente os não são aliados – torna incerta qualquer informação. No entanto, desde 2014, Kim Yo-Jong vem chamando atenção dos veículos de mídia, devido ao poder aparentemente exercido.

De personalidade reservada, Kim Yo-Jong acompanhava o irmão em viagens, trabalhando como uma espécie de “administradora de agenda”. Aos passar dos anos, foi recebendo notoriedade e – ao que tudo passou a indicar – confiança do Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC). Em 2014, durante eleições da Assembleia Popular Suprema (um parlamento composto por 687 deputados, um eleito para cada unidade territorial), acompanhou o líder supremo da nação. Mais tarde, naquele mesmo ano foi nomeada funcionária sênior do Comitê Central do PTC. Em outubro – ainda em 2014 – Kim Jong-un ausentou-se por um tempo do cargo, sob justificativa de realização de um procedimento médico, e ela ficou incumbida de cumprir a agenda de compromissos estatais, em nome do líder supremo. O bom desempenho a rendeu uma promoção à vice-diretora do Departamento de Propaganda e Informação.


(Crédito: Jorge Silva/ AP)

Sua ascensão política no regime ditatorial continuou crescendo vertiginosamente. No ano de 2017, Kim Yo-Jong acabou também sendo nomeada membro suplente do politburo do Comitê Central, substituindo a tia, Kim Kyong-hee. Em 2018, apareceu como representante oficial de Kim Jong-un durante as Olímpiadas de Inverno em Pyeongchang. Sua participação foi considerada um marco histórico, visto que foi o primeiro membro do clã Kim a pisar em solo sul-coreano. Na ocasião, também encontrou-se pessoalmente com presidente Moon Jae-In para entregar uma carta escrita ao político.

Todo o ambiente político norte-coreano e o IDH do país são vistos de forma parcial, limitação deliberadamente criada pelo governo. Denúncias contra o descaso com os direitos humanos são recorrentes, vindos de expatriados e desertores da Coreia do Norte. Em 2017, o Departamento do Tesouro dos EUA reconheceu as políticas sociais de Kim Jong-un como uma ameaça aos direitos humanos e rechaçou a repressão.

Um documento oficial mencionava diversos nomes como responsáveis pelas condições, colocando eles em “Ordem executiva”, uma penalidade que proíbe cidadãos norte-americanos de conduzir qualquer transação com o sancionado. Entre eles estava Kim Yo-Jong por seu papel na censura de jornais e programas televisivos. Nas palavras do dito documento:

“O regime norte-coreano não somente se envolve em violações severas de direitos humanos, mas também implementa políticas de censura rígidas, das quais ocultam seu comportamento desumano e opressivo.”



Articuladora e porta-voz, ela continuou ocupando grandes cargos, até a cúpula em Hanói, em fevereiro de 2019. Ao fim das discussões sobre desnuclearização dos países e retiradas das sanções econômicas impostas, não houve conclusão e ambos Donald Trump – Presidente dos Estados Unidos da América – e Kim Jong-un saíram sem um acordo. O líder norte-coreano culpou os EUA e Kim Yo-Jong pelo fracasso, resultando na retirada de suas incumbências políticas e descendo alguns degraus. Apesar de não ter integrado o círculo governamental, ainda acompanhou o irmão em reuniões e aparições públicas, como assessora. Durante o período que se seguiu, até janeiro de 2020, quando não somente retornou, como também se tornou vice-diretora de Relações Internacionais do comitê central do PTC, além de ainda se manter à frente do Departamento de Propaganda e Informação.

A explosão em Kaesong e ameaças através dos veículos de comunicação estatais

Antes mesmo da cúpula de Hanói e a ascendência política, não era fácil medir a popularidade e poder designados à Kim Yo-Jong. Apesar dos cargos altos e diversas responsabilidades, a moça sempre foi discreta, nunca assinou declarações com o próprio nome, mantendo-se à sombra do líder supremo da nação. Após as semanas de abril nas quais Kim Jong-un se ausentou de reuniões e aparições públicas, levantando a suspeita de estar com problemas de saúde, sua irmã mais nova resolveu mostrar uma nova postura ao público.

A alçada da presença política mais vocal de Yo-Jong começou em março de 2020, quando a Coreia do Norte fez testes explodindo dois mísseis balísticos de curto alcance, o primeiro exercício militar em três meses, o evento foi assistido por Kim Jong-un e sua irmã. O país ao sul da península expressou fortes preocupações em relação à conduta deles, o que levou a Kim Yo-Jong a dar sua primeira declaração oficialmente sob seu nome, condenando o posicionamento contrário do governo de Moon Jae-In. Em declaração dada à KCNA, Yo-Jong disse:

“Tais afirmações incoerentes e ações feitas por Cheongwadae [ou Casa Azul, residência oficial do presidente da Coreia do Sul], somente para aumentar nossa desconfiança, ódio e desprezo pelo lado sul como um todo. Somos nós quem deveriam demonstrar ‘fortes arrependimentos’ com uma forma de pensar incoerente e imbecil, por parte da Cheongwadae.”


Moon Jae-In cumprimenta Kim Yo-Jong, após receber um convite para se reunir ao líder Kim Jong-un, em Pyongyang (Crédito: Yonhap/AFP)

No último mês, Kim Yo-Jong mostrou-se desgostosa com as negociações ligadas à Coreia do Sul, além de ter se pronunciado demonstrando desprezo aos desertores da Coreia do Norte, acolhidos pelo país vizinho. Seu movimento mais ousado – além de ter soltado notas na Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA, veículo estatal de comunicação do governo) criticando duramente a nação ao sul da península, e a atitude deles em relação aos manifestantes contrários às suas políticas públicas. Para demonstrar o descontentamento, um grupo vêm jogando panfletos, soltando balões (com DVDs, CDs e pen drives escondidos) e usando inclusive drones e alto-falantes, para denunciar aos habitantes do outro lado da Zona Desmilitarizada (DMZ) sobre as violações de direitos humanos, corrupções e ogivas nucleares ligadas ao governo.

A irmã mais nova de Kim Jong-un usou os veículos estatais norte-coreanos para soltar ameaças, caso medidas cabíveis em relação aos panfletos não fossem tomadas. Entre elas, cortar totalmente as comunicações e negociações com a Coreia do Sul, mandar tropas militares para a DMZ, acabar com o escritório em Kaesong para conversas diplomáticas e o resort na montanha Kumgangsan. De fato, drones, caixas de som, balões e qualquer forma de mandar mensagens propagandas políticas através da fronteira, são medidas proibidas pela Declaração de Panmunjom, assinada por Kim Jong-un e Moon Jae-In em 2018. Além dos prenúncios de ataques, o governo norte-coreano alegou estar preparando contra-ataque com panfletos, mensagens através de alto-falantes – montados na fronteira voltados ao sul – e outras formas de tentar convencer sobre a glória de Pyongyang.

Na terça-feira, 16 de junho, uma das ameaças foi cumprida e o escritório para Relações Diplomáticas entre-Coreias em Kaesong veio abaixo com uma explosão.

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Uma questão curiosa sobre os anúncios feitos através do KCNA: em todos Kim Yo-Jong usava o próprio nome, cargo, denominações, formas de identificação pessoal, mas ao longo do texto deixava claro que tudo vinha com o consentimento de Kim Jong-un. Afinal, quais são as intenções e planos do governo da Coreia do Norte e dos membros da Dinastia Kim?

Em tom pessoal, Kim Yo-Jong demonstra a confiança depositada pelo líder supremo nas ações e discursos. De acordo com entrevista concedida ao The Guardian (portal de notícias britânico) pelo pesquisador Youngshik Bong, do Instituto de Estudos Norte-coreanos em Seoul, na Universidade de Yonsei, ela está se tornando um alter ego de Kim Jong-un, ou pelo menos ele estaria preparando-a para tal. De acordo com Bong:

“É revelador o fato de Kim Jong-un permitir que ela escreva e anuncie declarações tão mordazes sobre a Coreia do Sul, com um teor tão pessoal”, pontuou o pesquisador. “Ele está claramente pronto para permitir que sua irmã se torne seu alter ego.”

(Crédito: Yonhap)

Quando tratamos de sangue, história e ocupações políticas, Kim Yo-Jong é uma das mulheres mais poderosas da Coreia do Norte. Com a crescente popularidade de seu nome em sites e redes sociais, a herdeira de Kim Jong-Il tem a seriedade e peso de suas ações, tão temida quanto o irmão mais velho. No entanto, não tem como prever o futuro nome à subir no cargo de “Presidente” após a morte do vigente. Muitos dos ideais seguidos pela nação são de filosofia confucionista, que, em suas raízes, delega à mulher os papéis inferiores aos masculinos, mas estudiosos e especialista no formato político norte-coreano, afirmam achar que a prioridade manter alguém da Dinastia Kim no poder. Seguindo essa lógica, o Yo-Jong é a única possível sucessora no regime ditatorial. De acordo com o diretor do Centro de Diplomacia e Segurança, no Instituto de Pesquisa da Coreia para Estratégias Nacionais:

“[Seu papel fundamental e cargos políticos altos, acima de muitos militares] faz crescer o status de Kim Yo-Jong. Tradicionalmente, a Coreia do Norte não reconhece um “nº2”, mas sob o regime de Kim Jong-un, o status dela vem aumentando em um movimento excepcional.”


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