Sociedade

Tiroteio em Atlanta escancara xenofobia contra asiáticos nos EUA

[ALERTA DE GATILHO] O texto a seguir trata de temas sensíveis (mortes e xenofobia). Recomendamos cautela ao prosseguir a leitura.


Na última terça-feira (16), houve nos EUA uma série de tiroteios em casas de massagem e spas em Atlanta. O acusado – um homem branco de 21 anos chamado Robert Aaron Long – foi detido no condado de Crispy, e assumiu ter sido o autor dos três ataques. O atentado deixou oito mortos, entre elas seis massagistas com descendência do leste asiático.



O responsável pelos ataques Robert Aaron Long.
Fonte: NDTV.

As denúncias foram feitas em um espaço de uma hora. O primeiro estabelecimento a ser atacado foi o spa Young Asian’s Massage Parlor, no condado de Cherokee, e deixou quatro mortos e um ferido. O suspeito acabou fugindo antes que a polícia chegasse. Em seguida foi aberto outro chamado, o primeiro por assalto à mão armada no Gold Spa, onde foram encontrados o corpo de três funcionárias mortas com tiros. Pouco depois atenderam ao pedido de socorro do estabelecimento vizinho, o Aromatherapy Spa, com uma morte.

Long foi detido três horas após a primeira denúncia, no condado de Crispy, tendo sido reconhecido como o responsável pelo primeiro tiroteio. Na manhã de quarta-feira (17), ele assumiu a autoria dos ataques e foi acusado por homicídio culposo. Os oficiais da força policial de Cherokee divulgaram uma nota dizendo que Long foi transportado para a prisão do Condado de Crispy.

Em seu depoimento, Long alega que suas motivações não foram ligadas à etnia. De acordo com o Capitão Jay Baker, xerife da Delegacia de Polícia do Condado de Cherokee, o detido diz ter problemas chamados de “vício em sexo” e que “os locais em questão funcionavam como tentações que ele gostaria de eliminar”.

A investigação ainda está em andamento e até o momento do fechamento desta reportagem Long não está sendo legalmente acusado de crime de ódio. As leis estadunidenses estabelecem que primeiro precisa ser provado o envolvimento de qualquer tipo de preconceito de etnia, sexualidade, religião, gênero ou deficiência, nas motivações do criminoso. Porém, apesar da tentativa de defesa do indefensável em relação ao atirador, os atos de Robert Aaron Long vieram durante um período ainda mais perigoso para imigrantes de países asiáticos e também para seus descendentes.



Crimes de ódio e xenofobia

De acordo com a organização Stop AAPI Hate (responsável por receber e apurar denúncias relacionadas a crimes de ódio contra indivíduos asiáticos-americanos), foram registradas 3.800 denúncias de crimes – ataques físicos ou ofensas – contra cidadãos asiáticos-americanos nos últimos 12 meses, somente nos EUA. Políticos, órgãos e vítimas atribuem esse aumento aos constantes ataques efetuados pelo ex-presidente Donald Trump culpando a China pelo alastramento do coronavirus e surgimento da pandemia, incentivando – de forma implícita – que chineses e quaisquer outros imigrantes fossem utilizados como “bodes expiatórios” para os impactos causados no país e no mundo.

A Stop AAPI Hate divulgou uma série de documentos provando que mulheres asiáticas denunciam 2,3 vezes mais do que homens e que muitas delas trabalham em situações de vulnerabilidade, como foi o caso das massagistas mortas em Atlanta.

Estudando a discriminação contra asiáticos, Charissa Cheah, professora e pesquisadoras na Universidade de Maryland, pontuou em entrevista ao Washington Post a existência de determinadas expressões utilizadas que tornam as reações adversas contra imigrantes ou descendentes ainda mais radicais, como o termo “gripe chinesa” (ou China flu), fazendo deles um alvo para ataques e abusos verbais ou físicos. Outro ponto chave está nas raízes de comportamentos xenofóbicos – piadas, por exemplo, a marginalização e dinâmicas de gênero, classe e poder.

De acordo com a Professora Cheah: “Existe essa concepção nos EUA de que asiáticos não são ‘americanos o suficiente’, o eterno estrangeiro, ou ainda o mito da ‘minoria modelo’ que representa asiáticos-americanos como tendo superado a discriminação, se tornando bem-sucedido. Além da sexualização e exotização de mulheres, todas em situações perturbadoras.



A fetichização da mulher asiática

Uma das alegações feitas por Robert Aaron Long, tentando apagar quaisquer possíveis acusações de crime de ódio da ficha, foi a de que os spas representavam “tentações” para o “vício em sexo”. Declarações assim perpetuam estereótipos errôneos em relação às massagistas, especialmente asiáticas.

Em entrevista à CNN, Esther Kao, uma das organizadoras do coletivo Red Canary Song que defende direitos de profissionais que trabalham em spas e do ramo de entretenimento erótico, as massagistas estão entre alguns dos trabalhadores em maior risco de vida. Kao diz que elas muitas vezes são imigrantes e estão sujeitas à estigmas e que abusos em serviço são comuns e acabam não sendo denunciados, por medo das investigações terminarem em deportação. Homens como Long, que enxergam massagistas como “tentações”, perpetuam a ideia de que todas oferecem massagens eróticas, quando muitos dos estabelecimentos não permitem tal comportamento. Ideias assim são resultados de anos de “racismo velado” e “fetichização da mulher asiática”.

Em uma declaração, Phi Nguyen – advogada do Asian American Advacing Justice – destacou: “As mulheres asiáticas assassinadas ontem estavam trabalhando em serviços de extrema vulnerabilidade e baixa remuneração, durante uma pandemia, isso demonstra diretamente o impacto da misoginia, violência estrutural e da supremacia branca.



Conscientização

Com as mortes e o crescimentos nos números de asiáticos sendo atacados e ofendidos diariamente, a campanha “#StopAsianHate” ganhou forças nas redes sociais. O uso da hashtag está auxiliando a angariar fundos para organizações que defendem e acolhem asiáticos em situações adversas, além de auxiliar na conscientização relacionada ao ódio e xenofobia.

A hashtag chegou aos trending topics no Twitter e continua sendo usada por celebridades e internautas, demonstrando relatos e ressaltando a importância de continuar lutando contra a xenofobia.

Artistas como a cantora CL e o Tablo (Epik High) abraçaram a campanha, indicando em suas redes sociais links para doações e outras formas de ajudar, por exemplo, continuar se informando e aprendendo sobre a luta diária.


Fontes: (1), (2), (3), (4), (5)
Imagens: Elijah Nouvelage (AFP via Getty Images) (reprodução) e NDTV (reprodução)
Não retirar sem os devidos créditos.

Bárbara Contiero

Maria-cafeína. Tenho mais livros do que amigos. Minhas roupas são 70% de brechós. Epik High me mantém acordada de manhã.

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