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O que é “Molka”?

[AVISO DE GATILHO] Esta matéria contém assuntos e tópicos que podem ser sensíveis aos leitores e servir de gatilho. Recomendamos cautela ao prosseguir a leitura.

Os molka, ou câmeras secretas, são um dos maiores problemas atuais da Coreia do Sul, um dos países mais modernos, em que 90% da população tem celular e quase sua totalidade possui acesso à internet. Visando erradicar casos molka e outros crimes virtuais, o país tem colocado em prática políticas de zero tolerância a tais condutas. Mas o que exatamente são os molka? Discutiremos a seguir a origem do termo e o que está sendo feito para combater este crime.



O que é molka?

Derivado da palavra 몰래카메라, ou mollae camera na romanização, “molka” é o termo usado para se referir tanto ao ato de fotografar ou filmar alguém sem seu consentimento, quanto para as imagens vazadas dessas pessoas.

Técnico e vendedor, Lee Seung-yon mostra uma mini câmera
Créditos: Ed Jones/AFP via Getty Image e TIME

Com câmeras escondidas em banheiros públicos, hotéis, motéis, lojas de conveniência, vestiários e mais, mulheres são as principais vítimas deste tipo de crime virtual. Apesar do conteúdo em contexto sexual ser minoria, também existe. Na maioria dos casos, trata-se de filmagens de mulheres usando o banheiro ou trocando de roupa. 

Os maiores consumidores de molka são homens, que pagam para assistir imagens de mulheres que não fazem a menor ideia que estão sendo filmadas e transmitidas na internet.


Histórico: Protestos anti-molka de 2018

Na Coreia há relatos de imagens molka desde 1997, como câmeras no banheiro, mas, na época, o ocorrido foi relatado como algo “para a segurança de todos”. No entanto, uma nova onda de casos começou a surgir, e agora as mulheres deram o primeiro passo para exterminar a cultura molka. 

Protesto de 2018: O lema “Minha vida não é sua pornografia” foi amplamente adotado por mulheres
Créditos: Ed Jones/AFP/Getty Images

Em 2013, uma nova onda feminista começou a despontar no país, porém, foi em 2018 que o maior ato feminista da Coreia aconteceu: três protestos anti-molka. Juntando mais de 70.000 mulheres nas ruas de Seul, os protestos foram contra legislações que não resolviam os problemas e as mulheres exigiram mudanças.

Com a grande repercussão dos protestos, parte da população que já havia internalizado a cultura molka passou a entender como ela viola os direitos das mulheres. 

Ademais, a mídia começou a tratar o assunto com mais seriedade, trocando o nome Molka por “filmagem ilegal”. Isso porque molka tem uma conotação de câmera secreta como uma pegadinha, brincadeira sem compromisso, quando de fato as mulheres estavam sendo expostas sem consentimento. 


Casos famosos que incluem práticas molka

Além dos protestos de 2018, alguns crimes que aconteceram no cenário sul-coreano tornaram-se famosos não só entre fãs de K-pop, mas ao redor do globo. 

O caso Burning Sun, que também explodiu em 2018 e envolveu idols e policiais, é considerado o maior escândalo da indústria do K-pop. As alegações incluem molka, pois, envolveu abuso sexual contra mulheres, filmagens e distribuição sem consentimento das vítimas. 

O Nth Room também foi exposto e revelou chantagem e venda de vídeos de exploração sexual através do Telegram. Mais de 100 mulheres e 26 menores de idade foram vítimas de fotos e filmagens ilegais, compradas por mais de 260.000 IDs.

Leia também:
[Dossiê] Burning Sun, Seungri e JJY: Uma linha do tempo do maior escândalo sexual no K-POP
Dossiê: “Nth Room” – O esquema de chantagem e exploração sexual de mulheres coreanas

E, infelizmente, o caso de Goo Hara, ex-integrante do girl group KARA, também é mais um caso de molka. Chantageada pelo ex-namorado com imagens de momentos íntimos, a cantora cometeu suicídio em novembro de 2019.  

Existe ainda outros tantos casos em que fãs de K-pop se revoltam quando idols femininas são filmadas ou fotografadas trocando de roupa sem saberem que estão sob a mira de câmeras, mas essa realidade não é exclusiva do mundo artístico. 

Em resumo, casos de crimes virtuais, não só molka, têm se tornado uma constante e situações como a do Burning Sun, que teve envolvimento direto de idols, só ressalta o quanto a cultura do molka é tão internalizada que até artistas a fazem. No entanto, o caso também gerou grande repercussão em que a população discutiu não só este tema, mas sobre prostituição e violência sexual contra mulheres. 



Como o patriarcado e a misoginia contribuem para a normalização da prática

Dizer que o patriarcado e a misoginia é um problema exclusivo da Coreia é uma mentira, porém, em um ranking que mede a igualdade de gênero, a Coreia ocupa o 102º lugar entre 156 países, segundo dados da World Economic Forum Global Gender Gap de 2021.

Outra queixa levantada durante os protestos de 2018 foi que a polícia não agia em prol da vítima. Quando uma garota ou mulher mostrava imagens suas em um site pornográfico, os policiais culpavam a vítima, questionando suas roupas ou o lugar em que estava. 

Song Hana, do Digital Sexual Crime Out (DSCO), afirma que a desigualdade social é a grande causadora do problema. Ela ainda completa:

Homens pensam que são superiores às mulheres, então filmar e assistir mulheres é como uma brincadeira para eles. E a punição para estes crimes não é nada comparada com o estigma sofrido pelas vítimas. Algumas até tentam se matar.

O dano psicológico que a exposição causa às mulheres não tem volta. Há casos de mulheres que mudaram de país, fizeram cirurgias plásticas para mudar o rosto, começaram a ficar paranoicas sobre filmagens e fotos e até deixaram de se relacionar com outras pessoas. Infelizmente, em casos mais extremos, mulheres já perderam a vida ao se encontrarem em sites pornográficos. 


As ações do governo

O que precisa melhorar

Em 2017, mais de 5.400 casos envolvendo imagens ou filmes molka foram registrados, mas apenas 2% resultou em pena para os criminosos. Além disso, em 2021, a Human Rights Watch apontou a Coreia do Sul como o país que mais usa câmeras de espionagem para crimes sexuais digitais. 

Anteriormente, provar um crime por meio de fotos ou vídeos de mulheres em banheiros ou vestiários era mais difícil. Mas agora o governo tem trabalhado para simplificar as leis para que as mulheres possam abrir queixa contra seus ofensores. 

Agora os artigos 13 e 14 da seção de Crimes Sexuais explicita que é ilegal tirar fotos que podem causar “estímulos sexuais ou humilhação sem o consentimento da vítima”. Porém, na verdade, esta determinação ainda é subjetiva, já que no caso de mulheres usando o banheiro não há nenhuma conotação sexual. 

Apesar das promessas de multas de até 30.000.000 de won ou até cinco anos de cadeia para os envolvidos em filmagens e comercialização de imagens molka, 80% dos casos foi resolvido com uma multa de menos de 3.000.000 won e apenas para quem vendeu a filmagem, já que considera-se difícil fazer aqueles que instalaram as câmeras pagarem pelos seus atos. 

Ademais, a rapidez com que um caso de molka foi resolvido repercutiu negativamente: uma mulher de 25 anos fotografou e postou a foto de um modelo nu e foi presa por isso. 

Ainda que a grande maioria de casos molka envolva homens filmando e comercializando imagens de mulheres que não queriam ser vistas naquele momento e naquele contexto, o caso de uma mulher foi rapidamente julgado. Recebendo a sentença de 10 meses de prisão, a população acusa o governo de trabalhar neste com muito mais afinco do que nos outros, em que mulheres são as vítimas. 

Ações para ajudar as vítimas

Mas nem tudo anda pelo mal caminho: após mais de 200.000 pessoas assinarem uma petição on-line para pedir punição mais severa às pessoas que filmam os outros sem permissão, uma nova iniciativa para trabalhar com as vítimas está sendo elaborada. 

Segundo o Ministério da Igualdade de Gênero e Família, vítimas de crimes sexuais digitais terão acompanhamento psicológico e ajuda para encontrar e deletar as fotos. 

Inspeção nos banheiros públicos de Seul
Créditos: JUHYOSANG via BBC

Ademais, em 2018, Seul contratou um grande número de empregadas para as inspeções em banheiros públicos. Assim, 8.000 mulheres visitam diariamente os 20.000 banheiros públicos da cidade para garantir que as mulheres possam usá-los em segurança. 

O ano de 2018 definitivamente foi decisivo para a Coreia perceber a gravidade da situação e partir para ações de combate. Inclusive, “molka” foi a terceira palavra mais comentada no Twitter no país, só perdendo para outros dois tópicos que mostram que as mulheres querem acabar com esta situação: a hashtag #SchoolMeToo, em que estudantes revelaram casos de violência sexual na escola, e a palavra “feminismo”. 

Ainda que a Coreia tenha muito o que fazer no campo da legislação para tentar erradicar o problema, a questão molka não é somente sobre pornografia ou voyerismo. O governo precisa mudar completamente seu sistema educacional e cultural para garantir a equidade de gênero e que menos mulheres percam suas vidas por crimes como este.

Fonte: (1), (2), (3), (4), (5), (6)
Imagens: The Courage to be Uncomfortable, (Juhyosang via BBC), Ed Jones (AFP via Getty Image e TIME), Ed Jones (AFP Getty Images via NPR) – reprodução
Não retirar sem os devidos créditos. 

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  • Naomi Shiroma

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