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Conheça o Obangsaek, o significado das cinco cores na cultura coreana

Na cultura coreana, as cores nunca foram apenas uma questão de estética. Durante séculos, determinadas tonalidades foram associadas a direções, elementos da natureza, estações do ano e ideias como equilíbrio, proteção, autoridade e prosperidade. Esse sistema é conhecido como Obangsaek (오방색), ou “cinco cores cardeais”, e tem como base a tradição oriental do Yin-Yang e dos Cinco Elementos.

As cinco cores principais são azul ou verde (cheong), vermelho (jeok), amarelo (hwang), branco (baek) e preto (heuk). Elas aparecem nas roupas, na arquitetura, nos objetos rituais, na culinária, nas pinturas e em diferentes manifestações da vida cotidiana coreana, sendo consideradas as cores predominantes da cultura tradicional do país pelo Museu Nacional do Folclore da Coreia.

O que é o Obangsaek?

Da esquerda para a direita: 1. Diagrama de Obangsaek 2. Dancheong (단청) 3. Vestuário listrado em arco-íris (색동옷)

O termo Obangsaek pode ser entendido como “as cinco cores das cinco direções”. Sua lógica está relacionada ao Eumyang Ohaeng, nome coreano do sistema de Yin-Yang e dos Cinco Elementos, uma tradição filosófica compartilhada por diferentes sociedades do Leste Asiático.

Dentro dessa visão de mundo, Yin e Yang representam forças complementares que estão em constante interação, enquanto madeira, fogo, terra, metal e água formam um sistema de correspondências utilizado para interpretar a natureza e a experiência humana.

As cores, portanto, passaram a ser relacionadas às cinco direções:

  • O azul/verde (Cheong) representa o leste e a madeira, estando ligado à primavera, ao crescimento e à vitalidade;
  • O vermelho (Jeok) corresponde ao sul e ao fogo, simbolizando energia, calor e proteção;
  • O amarelo (Hwang) representa o centro e a terra, sendo associado ao equilíbrio e à autoridade;
  • O branco (Baek) está ligado ao oeste e ao metal, relacionado à pureza e à paz;
  • O preto (Heuk) representa a morte e a água, associado ao inverno, à profundidade e à solenidade.

É importante lembrar que essas correspondências pertencem a um sistema tradicional de pensamento, e não a uma classificação científica moderna das cores. Seu valor está justamente em revelar como diferentes sociedades organizaram simbolicamente sua compreensão do mundo.

Do palácio à vida cotidiana

Créditos: Damwah Media Group

A força do Obangsaek pode ser percebida em diversos objetos e práticas da cultura coreana. As cores aparecem na arquitetura, nos tecidos, na cerâmica, em pinturas e em objetos usados em cerimônias.

Durante a Dinastia Joseon (1392–1897), a roupa também funcionava como uma forma de comunicação social. Materiais, cortes, ornamentos e cores ajudavam a indicar a posição, a ocasião e o status de quem os vestia. A indumentária da corte era especialmente regulamentada, fazendo com que a aparência de uma pessoa pudesse transmitir informações sobre sua função dentro da estrutura social.

Esse uso das cores não significava que toda pessoa utilizasse obrigatoriamente as cinco tonalidades ao mesmo tempo. Na realidade, diferentes combinações assumiam significados próprios de acordo com o objeto, o contexto e a época.

O resultado foi uma linguagem visual extremamente rica, na qual a cor podia representar tanto a identidade individual quanto valores familiares, religiosos e políticos.

Saekdong: cores para proteção

Uma menina vestida de hanbok posando para uma foto comemorativa em uma casa em Jinhae, Gyeongnam, em 1952

Uma das manifestações mais conhecidas do Obangsaek é o Saekdong (색동), padrão formado por faixas coloridas aplicadas principalmente às mangas do hanbok.

O padrão aparece especialmente em roupas infantis e cerimoniais. Durante o doljanchi, a celebração do primeiro aniversário de uma criança, ela podia vestir um saekdong jeogori, com faixas de diferentes cores. Segundo o Museu Nacional do Folclore da Coreia, a combinação de vermelho, amarelo, azul, verde e branco estava relacionada ao desejo de afastar o mal e trazer saúde, felicidade e longevidade à criança.

A tradição também aparece em roupas de casamento, tecidos decorativos, bolsas e bojagi, os tradicionais panos coreanos usados para embrulhar e transportar objetos.

O Saekdong é um exemplo de como o Obangsaek ultrapassou a teoria filosófica para se transformar em uma linguagem visual presente em momentos importantes da vida.

As cores na arquitetura e no poder

Irworobongdo

O Obangsaek também está presente no Dancheong (단청), técnica utilizada para decorar e proteger construções tradicionais de madeira, como palácios e templos. Verde, azul, vermelho, amarelo e branco aparecem em padrões geométricos e florais extremamente detalhados.

Leia também: Saiba o que é Dancheong, a arte tradicional coreana

Além de embelezar os edifícios, os pigmentos tradicionais ajudavam a proteger a madeira contra as condições ambientais. Muitos eram produzidos a partir de minerais, como malaquite, azurita e cinábrio, mostrando o conhecimento dos antigos artesãos sobre os materiais disponíveis na natureza.

Outra representação importante é o Irworobongdo (일월오봉도), a “Pintura do Sol, da Lua e dos Cinco Picos”. O painel era colocado atrás do trono dos reis de Joseon e apresentava montanhas, água, árvores, sol e lua. A composição simbolizava a ordem do universo e reforçava a posição central do monarca.

Da roupa à comida

Cena interpretada por Shin Hye Sun e Kim Jung Hyun de Mr. Queen

As cinco cores também influenciaram a maneira como os coreanos se vestiam e preparavam seus alimentos. Durante a Dinastia Joseon, cores e materiais das roupas podiam indicar posição social, função e ocasião.

Um dos pratos frequentemente associados à ideia de harmonia visual é o bibimbap, no qual diferentes ingredientes são organizados sobre o arroz, formando uma composição multicolorida. Verduras, vegetais, carnes, cogumelos e outros acompanhamentos produzem uma combinação de cores que também valoriza o contraste entre os ingredientes.

A tradição coreana de organizar alimentos de acordo com suas cores não deve ser confundida com a ideia moderna de que determinada cor de alimento “cura” automaticamente um órgão específico. Trata-se, antes, de uma tradição culinária e cosmológica na qual aparência, sabor, equilíbrio e simbolismo podem coexistir.

Essa preocupação com a combinação de cores também aparece em pratos tradicionais como o Gujeolpan, servido em um recipiente dividido em compartimentos, e em diferentes preparações cerimoniais.

Já o Tangpyeongchae ganhou um significado político durante o reinado do rei Yeongjo. O prato, composto por ingredientes de diferentes cores, se tornou associado à política de equilíbrio entre as facções da corte, transformando a comida em uma representação da harmonia que o rei desejava para o governo.

Um símbolo que continua vivo

Uma cena de Cheoyongmu

Apesar de suas raízes antigas, o Obangsaek não ficou preso ao passado. Suas cores continuam aparecendo na moda, na arquitetura, nas artes visuais e no design contemporâneo coreano.

A própria Taegeukgi, bandeira da Coreia do Sul, carrega elementos dessa tradição. O centro vermelho e azul representa a interação entre Yin e Yang, enquanto o branco do fundo e os quatro trigramas pretos completam a composição simbólica.

Do vestuário tradicional às produções contemporâneas, o Obangsaek mostra como a cultura coreana transformou a cor em uma linguagem própria. Mais do que uma combinação de cinco tonalidades, ele representa uma maneira de relacionar natureza, sociedade, espiritualidade e identidade, mantendo sua influência até os dias atuais.

por Alice Rodrigues
Fonte: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12)
Imagens: Museu do patrimônio da arte asiática, KBS, K-Culture, tvN, Damwah Media Group
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