[Setembro Amarelo] Coreia do Sul e estatísticas que assustam

New Shilla Kwan

AVISO: Este texto é estatístico e um tanto técnico, que visa informar e conscientizar, porém pode gerar desconforto.

Neste mês de Setembro há uma intensa campanha contra o suicídio, que segundo a Organização Mundial da Saúde,  90% dos casos poderiam ser evitados.

E se tem algo que quando se menciona Coreia do Sul precisa ser falado, é suicídio. A Coreia é o segundo país onde mais pessoas tiram a própria vida, perdendo apenas a Guiana. E por que isso ocorre? Bem o suicídio está ligado à profunda depressão emocional e a qualidade de vida em sociedade. O alcoolismo, ansiedade e síndrome do pânico, são alguns dos sintomas que antevem uma parcela da população que está doente.

Apenas no país são cerca de 40 mortes por dia, se tornando a 4º causa mais comum de morte e a primeira entre pessoas de 10 a 39 anos, acima do câncer e dos acidentes de trânsito¹.

Taxas de suicídios por 100.000 pessoas. Fonte: OECD

O suicídio relacionado ao gênero

Em termos estatísticos os homens tem uma taxa de suicídio maior que a das mulheres, porém elas ganham em tentativas. Por meio de estudos concluiu-se que os homens utilizam métodos mais letais e portanto, tem uma taxa maior de conclusão. Além disso, as mortes femininas aumentaram nos últimos anos, 282% contra 244% dos homens². Os motivos podem estar relacionados com os problemas enfrentados pelas mulheres, já apontados numa matéria da KoreaIN.

Taxa de suicídio na Coreia do Sul por gênero e idade. Fonte: OMS, 2012.

O suicídio relacionado a idade

Uma das razões para a Coreia do Sul estar tão alta no ranking mundial de suicídios é pelo alto índice entre os idosos. Apesar do país ser desenvolvido, há uma grande taxa de pobreza entre os mais velhos. Isso ocorre devido ao sistema deficitário da previdência sul-coreana, a população tem que ser autossuficiente até o fim da vida. Assim muitos idosos acabam tirando a própria vida para não se tornar um fardo financeiro para a família, um vez que a cultura dos “filhos cuidarem dos pais” vem desaparecendo. Pessoas da zona rural tem a taxa de suicídio ainda mais elevadas, resultante do abandono.

Os mais jovens tradicionalmente cuidavam de seus pais idosos, mas essa estrutura social foi quebrada ao longo dos anos, deixando muitos idosos incapazes de se alimentar.
Os mais jovens tradicionalmente cuidavam de seus pais idosos, mas essa estrutura social foi quebrada ao longo dos anos, deixando muitos idosos incapazes de se alimentar.

Porém o grupo que lidera o ranking são os estudantes e universitários. Segundo o Instituto de Políticas para a Juventude, um em cada quatro estudantes tentou o suicídio pelo menos uma vez. O ambiente hiper-competitivo tem minado os jovens. Já mencionamos o documentário “Reach for the SKY”, em que mostra como uma grande parte da população em idade de estudo está sofrendo de depressão e são os pais as principais fontes de pressão para o sucesso do aluno. Pais exigentes, professores autoritários, longos cursinhos tem cobrado um preço alto da saúde dos jovens.

Muitos jovens se sentem pressionados para conseguirem boas notas.
Muitos jovens se sentem pressionados para conseguirem boas notas.

O suicídio relacionado ao status econômico

Outro fator que pode ser decisivo a causa da depressão e por fim o suicídio é o poder aquisitivo. Este está intimamente relacionado aos grupos mencionados anteriormente, levando em consideração que na Coreia do Sul o nível econômico está relacionado ao nível educacional do indivíduo. Muitos jovens, principalmente em época de vestibular, sofrem pressão social causando stress, sono inadequado, uso de álcool e cigarro; e quando associados ao baixo índice econômico se tornam quase uma bomba relógio.

Isso também afeta os idosos, devido o fator de dificuldade econômica. Cerca de 71,4% da população idosa é ignorante e 37,1% deles vivem em áreas rurais³. Assim sendo, eles são mais propensos a enfrentar problemas financeiros, o que pode levar a problemas de saúde e conflitos familiares.

Taxa de pobreza por faixa etária. Fonte: OECD, 2011.

Em épocas de crises financeiras, como a crise financeira asiática de 1997 e a recessão econômica de 1998, que gerou uma onda de desemprego, houve um aumentou da depressão clínica e suicídios no país.

Em 2014 o pai e avós do cantor LeeTeuk do Super Junior foram encontrados mortos, provavelmente devido a problemas financeiros e de saúde. Em nota o pai escreveu: “Vou levar os meus pais e ir para o céu junto, para vivermos bem. Eu sinto muito pelos meus filhos.”

O suicídio relacionado a mídia 

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A atriz Lee Eun-ju.

Muitas celebridades acabam por tirar a própria vida ao perder a fama ou receberem duras críticas. Há diversos casos conhecidos de suicídio entre celebridades, um dos casos mais conhecidos é da atriz Lee Eun-ju de TaegukgiThe Scarlet Letter. Em fevereiro de 2005, após se formar na Universidade de Dankook ela retornou ao seu apartamento, onde cortou os pulsos e se enforcou. Sua família disse que ela tinha crises de depressão e insônia, após ter realizado cenas de nudez no filme The Scarlet Letter.

Em uma nota escrita com sangue a atriz disse: “Mãe eu sinto muito e te amo”, e em outra mensagem separada escreveu: “Eu queria muito fazer isso. Mesmo que viva, eu não estou viva realmente. Eu não quero que ninguém se desaponte. É bom ter dinheiro… Eu queria ganhar dinheiro.” Sua morte casou comoção entre amigos e familiares, a cantora Bada cantou em seu velório a canção “You Were Born to be Loved“.

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A cantora U;Nee. Após sua morte sua mãe confirmou que ela sofria de depressão e tomava medicamentos.

Outros casos conhecidos foram do ex-presidente Roh Moo-hyun, da modelo Daul Kim, ambos em 2009, da artista U; Nee em 2007, a “atriz da nação” Choi Jin-sil em 2008 e seu ex-marido Cho Sung-min, em 2013. A participante de um reality show de namoro do canal SBS foi encontrada morta em pleno set, o que levou o cancelamento do programa em 2014. A participante, do também reality “Baby Kara”, Sojin chegou a ser levada ao hospital, mas a cantora não aguentou.

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Após a confirmação da Sojin, a DSP Media declarou: “Acabamos de ouvir essa triste notícia hoje. Faremos o que pudermos para ajudar a família“

E após a morte de celebridades, a Coreia do Sul tende a sofrer uma onda de suicídios. Em um estudo realizado com a cobertura da mídia há uma forte correlação de eventos catastróficos e morte de celebridades com o aumento das taxas de suicídio. Além disso, os métodos utilizados por celebridade suicidas tendem a ser repetidos. Após a morte da atriz Lee Eun-ju, mais pessoas se mataram por enforcamento.

A ideia do fracasso na sociedade coreana não é bem aceita e assim se torna uma grande vilã. Criticas na internet, perda de dinheiro, declínio profissional, não atingir a nota almejada no vestibular ou se sentir um fardo para a família, são exemplos que atingem diretamente a honra dos coreanos e assim afeta seu psicológico. Campanhas do governo tem sido implementadas para mudar o pensamento, afinal é importante que haja uma mudança social. Não é ruim falhar, pois estas coisas fazem parte da vida, ruim é julgar e mais ainda humilhar. Quebrar um paradigma cultural é necessário, para que então a Coreia do Sul não seja mais reconhecida como a “república do suicídio”.

¹ Dados do Escritório de Estatística de Seul
² Gender Differences in Suicidal Behavior in Korea. 2008
³ Socioeconomic Inequalities in Suicidal Ideation, Parasuicides, and Completed Suicides in South Korea. 2010

Por Amanda Soares
Fontes: OMS, Aljazeera, UOL, Korea Herald, Korea Exposé, CNN, BBC.
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