Sociedade

A indústria do K-pop é racista?

Como anfitrião das Olimpíadas, o Brasil aproveitou o mega evento esportivo para enaltecer uma das suas principais características: a diversidade. Mas o fato de ela existir não significa que ela seja respeitada. Infelizmente, o preconceito está enraizado em nossa cultura e muitas vezes passa despercebido, disfarçado de “piada”, “opinião” ou simplesmente um “comentário ingênuo”. Qual fã de K-pop nunca ouviu alguma piada racista ao falar que é fã da cultura coreana? Os asiáticos, em geral, são frequentemente representados por estereótipos e de forma ridicularizada. Esse desrespeito sempre causa uma grande revolta por parte das vítimas e dos fãs. Mas, será que esses que se encontram em posição de vítima também não são agressores em seu país?

É importante ressaltar que, obviamente, não podemos e nem devemos generalizar, mas nosso objetivo aqui é mostrar como a questão do preconceito é mais comum do que imaginamos, principalmente quando se trata da indústria K-pop. Uma pesquisa realizada em 2013 pelo Washington Post revelou que a Coreia do Sul é um dos países menos racialmente tolerantes do mundo. Segundo os dados, “mais de um a cada três sul-coreanos afirmam não querer um vizinho de uma etnia diferente”.

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Existem diferentes teorias sobre o surgimento do preconceito contra negros na Coreia do Sul, por exemplo. A explicação histórica diz que no passado os trabalhadores passavam o dia todo debaixo do sol trabalhando nas fazendas agrícolas, enquanto os ricos ficavam apenas dentro de casa e, portanto, tinham a pele bem mais clara. Por esse motivo, ter a pele bronzeada significava que você pertencia à classe trabalhadora, ou seja, pobre, daí o preconceito. Já outros acreditam que essa aversão seja resultado do medo do desconhecido, visto que a Coreia do Sul é um país muito homogêneo (98% são nativos, enquanto apenas 2% são estrangeiros). Por fim, há quem diga que tudo isso é apenas mais uma das grandes influências dos Estados Unidos.

Independentemente da sua origem, o fato é que o preconceito é disseminado em rede nacional, sendo utilizado como mero instrumento para arrancar risadas da plateia em programas de TV, ganhar audiência e lucrar com estilos e conceitos de álbuns e videoclipes. A situação se torna ainda mais agravante quando artistas, os formadores de opinião, cujas vozes são ouvidas em escala mundial, reproduzem esse sentimento por meio de tuítes e posts no Instagram.

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O blackface, ato de maquiar pessoas brancas para se passarem por negras, ganhou popularidade nos Estados Unidos no século 19 e começou a ser copiado pela Coreia em programas de comédia. A prática foi suspensa antes das Olimpíadas, pelo receio de ofender os atletas africanos. No entanto, o blackface ressurgiu em 2003 com o grupo Bubble Sisters, cuja imagem era baseada totalmente nessa prática, incluindo a capa do álbum e todos os vídeos. Entre os artistas que também já se envolveram nessa polêmica estão: G-Dragon e DaeSung (Big Bang), KiKwang (BEAST) e Jackson (GOT7)

Vale ressaltar que o conceito de “negro” para os sul-coreanos é bem diferente do nosso. Qualquer um com a pele um pouco mais bronzeada já se torna alvo de piadas. Durante um evento, enquanto os funcionários arrumavam as cadeiras para os integrantes do EXO se sentarem, ChanYeol comenta para Kai: “até sua cadeira é escura”. Outras piadas do tipo, atacando o mesmo artista, também já circularam na mídia. Em uma exposição da SM Entertainment, o apresentador pergunta a TaeMin (SHINee) qual é a fraqueza de Kai, e a resposta é: “a pele dele é tão escura”.

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Alguns grupos com grande influência do hip-hop, como Big Bang e 2NE1, são constantemente criticados por se apropriarem de elementos da cultura negra em seus vídeos, sem a presença de qualquer dançarino ou ator negro. A população negra foi, e ainda é, extremamente segregada nos Estados Unidos, o que forçou essas pessoas a criarem sua própria maneira de falar e a sua própria cultura. Utilizar esses elementos como se fossem apenas uma “fantasia” pode ser extremamente ofensivo. Afinal, se criticamos quando homens se vestem como mulheres com fim humorístico, ou quando asiáticos são representados como nerds, obcecados pelo estudo e antissociais, por que devemos enxergar essa representação da cultura negra apenas como “homenagem” ou “entretenimento”?

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Cena de Badman, do music video do grupo B.A.P

Srividya Ramasubramanian, professora de comunicação na Texas A&M University, realizou uma pesquisa com 450 jovens caucasianos, constatando que a exposição a personagens negros estereotipados na televisão aumenta a probabilidade de associar características como “preguiçoso” ou “bandido” às pessoas negras e diminui a propensão a apoiar políticas públicas. Essa má representação acontece inclusive em MVs, ainda que passe despercebida, como no caso de Badman, do B.A.P. Já um exemplo concreto desse pensamento preconceituoso é uma frase dita por Seungri, do Big Bang, durante uma turnê do grupo nos Estados Unidos. O cantor teria entrado na van errada e declarou ter ficado aliviado ao saber que o dono do veículo era branco, porque se fosse negro, poderia ter levado um tiro.

Tiger JK e Yoon Mirae também já presenciaram o preconceito de perto. Em 2010, o casal levou o filho Jordan ao programa Yu Hui Yeol’s Sketchbook. Após a aparição da criança, alguns artigos foram publicados sobre a participação da família e diversos comentários começaram a surgir criticando a aparência do menino, que na época tinha menos de 2 anos de idade. Tiger JK ficou furioso e postou uma série de tuítes condenando as frases racistas. Já Yoon Mirae, sendo filha de um afro americano e morando na Coreia do Sul, sofreu discriminação desde a infância.

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Estes são apenas alguns exemplos de como o racismo ainda está muito presente no K-pop. Mas a realidade de quem vivencia essa intolerância é ainda pior. Como fãs, é nosso dever condenar atitudes como essas. Quando ídolos se envolvem em assuntos polêmicos, a primeira reação de muitos fãs é defende-los a fim de “preservar a imagem”. No entanto, essa aceitação, essa tentativa de sempre proteger e defender artistas não importa qual seja o seu erro, significa um passe livre para que eles continuem agredindo física e moralmente outras pessoas. Por isso, os fãs também devem ter consciência da sua responsabilidade em criar uma cultura que não tolere o racismo.

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No início deste ano, TaeYang (Big Bang) decidiu celebrar o ano novo lunar com um aplicativo que permite ao usuário “utilizar o rosto” de qualquer pessoa. Ele, então, escolheu um filtro que o “transformava” em Kanye West e desejou a todos do Instagram um “Feliz Ano do Macaco”. A foto foi bombardeada com críticas de fãs enfurecidos que se sentiram extremamente ofendidos e indignados com a atitude. Logo em seguida a publicação foi deletada e Taeyang se desculpou. Exemplos como esse mostram a força e importância dos fãs nessa luta. É nosso dever exigir uma postura ética dos nossos ídolos e criticá-los, sim, quando necessário. Contamos com a ajuda de todos para coibir práticas racistas como essas e lutar por um K-pop que seja para todos!

E você? Lembra de algum outro caso que não foi citado aqui? Conta pra gente nos comentários!

Fontes: Groove Korea, SarangInGayo, Owning My Truth, Seoulistic, allkpop, Nexo
Por Erika Nishida

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