Justiça

Criminoso do caso que inspirou filme ‘Hope’ é liberto e causa protestos

AVISO DE GATILHO: A MATÉRIA CONTÉM RELATOS DE ABUSO SEXUAL E ESTUPRO. CASO POSSUA ALGUMA SENSIBILIDADE COM OS ASSUNTOS AQUI DESCRITOS, A LEITURA NÃO É RECOMENDADA.



No início deste mês, a Coreia do Sul foi sacudida pela notícia da libertação de Cho Doo-soon, um dos criminosos sexuais mais conhecidos do país, após cumprir uma pena de 12 anos de prisão após condenação pelo estupro de uma criança que possuía 8 anos de idade na época do crime.

A notícia da libertação do criminoso gerou revolta em cidadãos e personalidades coreanas, já que o caso responsável pela condenação de Cho repercutiu nacionalmente e mobilizou milhares de jornalistas e veículos de imprensa. O caso gerou tanta repercussão que no ano de 2013 o filme Hope, inspirado em grande parte pelo caso, foi lançado nos cinemas.

A liberação de Cho Doo-soon chega em um momento em que a lei coreana responsável por proteger crianças e adolescentes contras crimes sexuais e punir os responsáveis por tais crimes está sendo revista e endurecida. A revisão da lei agora prevê uma multa maior para aqueles que pagarem ou induzirem menores de idade a atividades sexuais e de prostituição terão que cumprir, em caso de condenação, penas que vão até os 10 anos de prisão ou pagamento de multa de cerca de US$45.000 dólares. A revisão também demanda que escolas, centros de tratamento juvenis e agências de entretenimento a reportarem crimes relacionados a menores de idade em suas dependências.



O Caso

No ano de 2008, Cho Doo-soon, na época com 57 anos de idade, sequestrou e estuprou uma menina de 8 anos de idade no banheiro de uma igreja na cidade de Ansan, a 42 quilômetros de Seul. Na época, a criança estava a caminho da escola e foi abordada pelo criminoso, que aproveitou a oportunidade para sequestrá-la e cometer o crime.


Imagem de Cho Doo-Soon na prisão. Fonte: Money Today

A criança sofreu uma série de ferimentos e teve seus órgãos genitais e ânus praticamente inutilizados após o ataque. A violência com que a vítima foi atacada gerou sequelas físicas permanentes. Após o crime, Cho foi identificado e preso, e o caso passou repercutir nacionalmente, sendo que a investigação apontou a culpa do acusado e culminou em uma condenação de 12 anos de prisão que é contestada até os dias de hoje por ativistas e cidadãos coreanos.

Na ocasião da condenação Cho, que já possuía uma série de denúncias de crimes sexuais atribuídas a ele, alegou que estava “intoxicado, não sabia ou não tinha total certeza do que estava fazendo exatamente”. O tribunal aceitou algumas das alegações de Cho, e por estar sob o efeito de álcool sua pena que inicialmente poderia ser de 15 anos foi reduzida para 12 anos.

Como Cho Doo-soon foi preso e condenado no início de dezembro do ano de 2008, o cumprimento de sua pena e consequentemente a sua libertação se deu no início deste mês, no dia 12 de dezembro.



A libertação e os protestos

Nos últimos anos, a iminente chegada da data da libertação de Cho Doo-soon da prisão levantou uma série de discussões e protestos na Coreia do Sul acerca da punição e libertação de criminosos sexuais como ele. Uma petição com mais de 600.000 assinaturas pedindo para que a liberação de Cho Doo-soon não ocorresse foi enviada à Casa Azul (residência e escritório presidencial sul coreano), que respondeu que ele já havia cumprido sua sentença e que a decisão da corte não poderia ser refeita.

Com a saída do criminoso da prisão, uma série de protestos dentro e fora da internet eclodiram pela Coreia do Sul, somada à insatisfação de moradores da cidade de Ansan, na região em que Cho mora, acerca da insegurança que sentem diante de um criminoso sexual vivendo em sua vizinhança. Uma pesquisa feita online com os residentes da cidade Ansan apontou que 85% dos moradores entrevistados acreditam que o endurecimento das leis é uma medida necessária para que criminosos sexuais cometam novos crimes. Ainda na mesma pesquisa, 7,5% dos entrevistados afirmou acreditar que criminosos deveriam ser separados da sociedade.

Em setembro deste ano, vista a chegada da liberação de Cho Doo-soon, o prefeito de Ansan, Yoon Wha-sub, pediu às autoridades através de petição online, uma emenda de lei que permitisse que Cho fosse transportado para uma unidade especial controlada pelo governo antes de voltar a viver em sociedade. A discussão acerca do tópico já havia sido discutida na Assembléia Nacional da Coreia, mas foi descartada devido o seu caráter de “dupla punição” e possível infração de direitos humanos.

Entre os cidadãos coreanos, a saída de Cho da prisão significa um misto de impunidade, medo e incerteza, como é o caso de alguns Youtubers e netizens coreanos que afirmam online e abertamente sua vontade de fazer justiça com as próprias mãos e punir Cho fisicamente pelos crimes que cometeu.

Tais atos estão gerando repercussão e uma movimentação muito grande em torno da vizinhança que cerca a casa de Cho Doo-soon, já que muitas pessoas estão se aglomerando na região, afirmam moradores de Ansan. No último dia 12, dia da saída de Cho da prisão, mais de 160 pessoas protestaram e algumas jogaram ovos e outros objetos no criminoso ao perceberem sua chegada, sendo que muitos seguravam placas desejando que Cho Doo-soon fosse “para o inferno”.


Protestantes tentam impedir que carro transportando Cho Doo-soon para sua residência siga sua viagem. Foto: Yonhap

Toda a confusão em torno da área em que Cho Doo-soon mora também tem gerado grande confusão entre os moradores, já que os protestos e movimentação de youtubers e outros cidadãos tem aumentado consideravelmente e se perpetuado durante o último fim de semana.

Apesar de toda a movimentação de pessoas protestando e buscando justiça com as próprias mãos, as autoridades coreanas tentam impedir tais atos numa ação de mão dupla: manter a vigilância na população para acalmá-la, bem como manter a vigilância em Cho Doo-soon para que não ocorra reincidência de crimes sexuais. Para isso, as autoridades reforçaram a vigilância e o número de câmeras de monitoramento do local onde a residência de Cho fica, sendo que o criminoso ainda deverá usar uma tornozeleira eletrônica por cerca de 7 anos.



O filme “Hope”

Inspirado pelo caso de 2008 e dirigido por Joon-ik Lee, o filme Hope foi lançado em 2013 e fez grande sucesso dentro e fora da Coreia. O filme conta a história de uma garota chamada So-Won que, em um dia chuvoso e numa avenida pouco movimentada foi abordada por um homem bêbado que a arrastou para uma obra e a estuprou. Assim como no caso da vítima, So-Won sofreu uma série de sequelas psicológicas e físicas, sendo obrigada a usar uma bolsa de colostomia por toda a vida dado o comprometimento de seus órgãos.

Pôster do filme Hope.
Fonte: Reprodução

O filme retrata uma série de situações do caso real e traz reflexões acerca da burocracia das investigações e atuação da justiça, do sofrimento e traumas da vítima e de seus familiares, bem como a exposição que as vítimas de crimes sexuais enfrentam, sobretudo em casos de grande repercussão.

Hope foi aclamado em várias partes do mundo e levanta uma série de questões para uma Coreia atual que tenta endurecer suas punições para criminosos sexuais e onde a voz do público se faz cada vez mais ouvida, visto os recentes casos do Nth Room e outros crimes sexuais que ganham cada vez mais a atenção dos cidadãos coreanos e ativistas que tentam mudar não apenas as leis, mas a sociedade coreana como um todo.

Leia mais:
Dossiê: “Nth Room” – O esquema de chantagem e exploração sexual de mulheres coreanas

Líder do “Nth Room” é condenado a 40 anos de prisão por crimes sexuais

Fontes: (1), (2), (3), (4)
Imagens: Money Today e Yonhap (Reprodução).
Não retirar sem os devidos créditos.

Jô Mesquita

Relações Públicas de formação, apaixonado por games e cultura pop. Se apaixonou pelo K-pop há mais tempo do que consegue se lembrar e hoje é colaborador da KoreaIN, tentando incluir e informar cada vez mais gente no universo do entretenimento sul coreano.

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