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Viva la Villa – A reinvenção da arquitetura ao estilo Retro Fit

É um prédio um tanto quanto intrigante, não é mesmo? Este edifício está localizado no distrito de Mapo, oeste de Seul, e chama a atenção das pessoas que passam por ali, que ficam imaginando qual seria a inspiração para tal.

A estrutura simétrica combinada com ladrilhos vermelhos lembra os prédios do jogo Minecraft. Porém, apesar da sua aparência, o edifício, chamado de Cascade House, é um típico edifício de quatro andares com múltiplos apartamentos, sendo o primeiro para estacionamento e lojas, conhecido na Coreia do Sul como Villa.



O arquiteto Suh Jae-Won explica: “O edifício é completamente simétrico. Nós tivemos que construir a parte norte em diferentes níveis e em formato de terraço devido a ‘Restrição arquitetônica para a inclinação à luz do dia’. Nós usamos esta legislação como um elemento para o design”. A legislação mencionada por Suh foi criada no começo dos anos 1970, como forma de proteger os moradores ao “direito à luz”, ou acesso à luz solar.

Suh ainda complementa: “Não é o exterior que é importante. Nós priorizamos o ambiente interno. Eu acredito que toda casa deve ter uma pia com tamanho decente e um espaço para jantar, porém, a maioria das villas no mercado falharam ao considerar isto uma coisa extremamente essencial”.


Cascade House, em Mapo, Seul (Créditos: JIN HYO-SOOK)

Cada andar do Cascade House possui apenas dois apartamentos, pois o arquiteto não poupou espaço e minimizou áreas não usáveis.

No entanto, o layout de cada apartamento é o que torna o Cascade House único. Normalmente, um apartamento de edifício de dois cômodos possui uma área de uso exclusiva com 33m², e a cozinha e o banheiro estranhamente apertados no espaço que sobra. Uma vez que a ideia é “dois cômodos para alugar”, o espaço para a cozinha não é uma prioridade.

Quando você entra no apartamento, passa pela sala de estar para chegar aos dois cômodos: a cozinha a esquerda e o quarto a direita. Ou seja, a Cascade House dedica um cômodo só para a cozinha. Cada cômodo possui uma porta de correr, que separa/isola os espaços quando necessário. “Quando você receber visitas e a sua cozinha estiver uma bagunça, você pode simplesmente fechar a porta”, comenta Suh.


As duas portas dos cômodos fechadas (Créditos: JIN HYO-SOOK)
Créditos: JIN HYO-SOOK

A bancada da cozinha possui 2.1 metros de comprimento e ainda há 60 centímetros de espaço entre a pia e fogão. De um lado da sala de estar há um armário embutido e o banheiro. O chuveiro é anexado à parede – na Coreia não é tão comum os chuveiros anexos a parede, evitando que a água se espalhe para todo o banheiro.

Apesar do apartamento possuir 35 m², todo o espaço disponível foi totalmente utilizado e os eletrodomésticos foram cuidadosamente instalados para parecer uma casa relativamente espaçosa.

Muitas villas são construídas rapidamente possuindo um mesmo padrão, acarretando apartamentos muito similares, pois todos os donos de prédios se importam com mais espaço disponível para a locação, o que torna estes apartamentos desconfortáveis para se morar, levando as pessoas a buscarem apartamentos mais complexos. Eu quero que as pessoas olhem de volta para a cultura Coreana das villas”, aponta Suh.

Criar a Cascade House foi possível pois o dono tomou a decisão de não buscar a lucratividade unicamente, priorizando o design e conforto dos inquilinos. O edifício também possui um terraço onde os residentes podem tomar banho de sol. A proporção de área útil (a proporção da área total de um edifício para o tamanho do terreno sobre o qual ele se encontra) é de 175,35%, ficando menor do que o limite legal do terreno de 200%.

O layout de Cascade House (Créditos: AOA ARCHITECTS)

O aluguel, no entanto, é maior do que em um apartamento de dois cômodos com um tamanho similar na área.

Mas será necessário mais do que bons designs para atrair os coreanos, que ainda preferem complexos de apartamentos a vilas. De acordo com a estatística, 40% dos coreanos vivem em complexos de apartamentos, como aponta estudos de 2019. E no chamado “bairro Villa”, a maioria dos residentes acabam se mudando também para os complexos de apartamentos.

As pessoas só falam de complexos de apartamentos quando discutem políticas de habitação, o que significa que as outras formas de consideração, como o ambiente, são deixadas de lado”, diz Kim Hyun-seok, líder da June Arquitetos. “É preciso que haja uma maneira sistemática de melhorar as condições residenciais dos complexos”.

Uma área com muitas villas faz com que os becos fiquem muito escuros. Isso se deve aos estacionamentos não iluminados no nível do solo, construídos com colunas de apoio ou “pilotis” – que são um conjunto de colunas aparentes, que deixam o pavimento térreo livre.

Estacionamento ao nível do solo, muito comum em Villas (Créditos: HAN EUN-HWA)

A lei, implementada em 2002, diz que edificações devem possuir estacionamentos de um certo tamanho, dependendo da área de uso exclusivo de cada locatário. Uma vez que os lotes de terra tendem a ser pequenos, o governo recomenda o design em pilotis, excluindo o espaço do estacionamento da área total útil e permitindo a construção de um andar extra.

Muitas villas têm sido construídas com o estacionamento no nível do solo, o que significa que os pedestres só podem ver um estacionamento com pouca luz.

A cidade de Paris parou a obrigatoriedade de estacionamentos para conjuntos habitacionais recém-construídos desde 2015, uma vez que menos parisienses estão possuindo carros. A cidade anteriormente exigia um estacionamento a cada 100 m² de habitação, mas agora ela redescobriu um espaço escondido sob praças e parques para utilizar como estacionamentos subterrâneos.

Mais de 62% dos lares parisienses não tinham carros em 2013, e mais da metade desses lares era a residência de somente uma pessoa. Paris tem muitos lugares de estacionamentos comuns, por isso não era realista exigir um estacionamento a cada edifício”, diz Kim. “Precisamos reavaliar se tal regulamentação [na Coreia] é necessária hoje”.


Eu quero que as pessoas olhem de volta para a cultura Coreana das villas.

Arquiteto Suh Jae-Won

As áreas residenciais de Seul são divididas em três categorias, cada uma com diferentes limites em quantos andares um edifício pode ter e também o quão alto a construção pode ser, assim como também diferentes limites de proporção de área. Oh Se-hoon, o mais novo prefeito de Seul, diz que planeja mesclar todas essas três categorias e aplicar igualmente um limite de proporção de área útil de 300%.

Porém, em certos terrenos os edifícios só podem ter a opção de serem altos, mesmo se o limite da proporção de área de piso for aumentado, em razão da legislação de “Restrição arquitetônica para a inclinação à luz do dia”.

Em áreas residenciais, por conta da parte norte do edifício precisar manter uma certa distância da linha da divisa dos prédios vizinhos, essa distância varia conforme os tamanhos dos prédios: 1,5 metro dos edifícios com menos de 9 metros, e mais de 50% da altura total do edifício para aqueles com mais de 9 metros. Por exemplo, o terceiro andar de um edifício pode ter uma estrutura comum, mas deve ter uma forma cônica a partir do quarto andar.

Cascade House visto de cima (Créditos: JIN HYO-SOOK)

A legislação visa evitar que os edifícios bloqueiem a luz solar dos edifícios vizinhos. No entanto, o regulamento muitas vezes faz com que os proprietários de pequenos terrenos desistam de construir qualquer coisa, já que a forma cônica obrigatória torna a construção potencialmente em um edifício muito pequeno. Neste caso, um limite de proporção de área de piso elevado não significa nada.

“As villas Coreanas tendem a ser baixas por causa dessa regulamentação do direito à luz”, disse Kim. “Mesmo que haja arquitetos qualificados, os regulamentos de construção e estacionamento os impedem de fazer boas casas.”



Fonte: (1)
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