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Entrega na Coreia
Sociedade

A força da cultura do delivery na Coreia do Sul


Os serviços de delivery, com alimentos e produtos entregues na sua porta com alguns toques no celular, se tornaram populares no mundo todo nos últimos anos. Mas, na Coreia do Sul, este fenômeno já existe há muito mais tempo. E não estamos falando de alguns anos a mais e sim alguns séculos. Antes mesmo da tecnologia, a história sul-coreana já tinha exemplos de serviços de delivery durante o período imperial. Venha com a KoreaIN descobrir mais sobre a longa história da cultura do delivery na Coreia do Sul.



Coreia a Noite
O delivery faz parte do cenário sul-coreano
Créditos: Andrea De Santis/Unsplash

Primeiros relatos de delivery na Coreia

O serviço de entrega expressa de cartas e documentos importantes estava presente desde a Dinastia de Goryeo (918-1392). Militares promissores começaram a carreira como soldados entregadores por sua velocidade. Similarmente, na Dinastia de Joseon (1392-1910) havia a figura dos “bobal”, um serviço expresso que entregava cartas principalmente entre famílias nobres.

No período de colônia japonesa (1910-1945), mensageiros contratados por empresas como Yongdalsa entregavam pacotes pequenos por bicicleta, como mais um recurso de entrega prática e ágil. O serviço era conhecido por ser rápido e confiável. Não só os clientes recebiam pacotes sem se preocupar com conteúdos, como também incumbiam os mensageiros de entregar grandes quantias de dinheiro e itens valiosos sem se preocupar.

Um ponto em comum entre tantas figuras de entregadores de cartas e encomendas é que eventualmente caíram em desuso com o surgimento de métodos de comunicação e transporte mais rápidos ou com mudanças nas políticas e governos. Mas a história muda de figura quando analisamos os entregadores de comida que estão presentes até hoje e existem na região há mais de dois séculos.

O relato mais antigo de um serviço de delivery de comida na Coreia é de 1768, durante a Era Joseon. Em um diário, Hwang Yun-seok escreveu sobre como, no dia seguinte do seu exame de serviço público, ele e seus amigos fizeram um pedido de delivery para o almoço. O prato escolhido foi naengmyeon, uma sopa fria com macarrão. Uma história simples e pessoal que acabou registrando os princípios da cultura de delivery da Coreia do Sul de hoje.

Prato coreano Naengmyeon
Naengmyeon é um prato de macarrão frio popular entre os nobres da Era Joseon Créditos: Kim Manseok/Pixabay

O naengmyeon era um prato apreciado particularmente por nobres e virou um pedido popular de delivery na época. O livro de Lee Yu-won indica que o próprio Rei Sunjo, que reinou entre 1800 e 1834, fez um pedido de naengmyeon. Ele ordenou que seus subordinados comprassem o prato e o trouxessem para ele enquanto observada a lua com seus oficiais. Assim, nesse período inicial, pratos de sopa e macarrão como naengmyeon eram os mais pedidos no delivery coreano.


O papel do delivery no crescimento econômico

Na segunda metade do século 20, a cultura do delivery na Coreia do Sul ganhou um novo capítulo. Neste período, o país passava por um grande crescimento econômico, muito baseado no trabalho extensivo dos sul-coreanos. O trabalho exaustivo custava aos coreanos o tempo para dormir e mesmo comer. Como consequência, o delivery se tornou uma alternativa rápida para se alimentar durante a rotina de trabalho.

Funcionárias de restaurantes levavam bandejas de comida para donos de pequenos empreendimentos e trabalhadores em escritórios. Outras vendedoras visitavam os grandes complexos de escritórios vendendo comida feita em casa direto para os trabalhadores. Alguns serviços de delivery vendiam o diferencial de retirar pratos e embalagens vazias de refeições anteriores, poupando preciosos segundos dos trabalhadores e mantendo as mesas limpas.

A urbanização na década de 1990 levou mais sul-coreanos para as grandes cidades e, ao mesmo tempo, começaram a surgir também os entregadores motorizados. Com a diversificação dos restaurantes, refeições de comida chinesa, pizza e frango frito entraram no cardápio do delivery sul-coreano.

Hoje o delivery sul-coreano tem desde pratos tradicionais até franquias internacionais
Créditos: fan4tian2/Pixabay

O frango frito, em particular, se tornou um dos pedidos mais populares nos últimos anos, sendo responsável por entre 20 e 30% de todas as entregas. Pratos mais típicos, como o macarrão jjajangmyun e a carne agridoce tangsuyuk, vem logo atrás nas preferências locais. Quanto aos hábitos sul-coreanos, os números dos apps mostram que finais de semana, principalmente tarde da noite, são os dias mais movimentados para as entregas.

Leia também: 7 comidas coreanas que você precisa experimentar

Nas últimas décadas, a cultura do delivery na Coreia do Sul se tornou mais tecnológica. Hoje, os aplicativos de celular, como Baedal Minjok, Yogiyo e Coupang Eats, são os principais meios de pedidos de entrega de comida no país.

App de delivery Baedal Minjok
O app Baedal Minjok é o mais usado na Coreia do Sul
Créditos: Baedal Minjok

Em relação aos avanços tecnológicos recentes, o Baedal Minjok, maior aplicativo de delivery do país, começou a testar o primeiro robô delivery em 2021. O robô foi instalado em um complexo de apartamentos em Suwon e é capaz de se comunicar com portões e elevadores para chegar até a porta dos clientes.



Cultura do “ppali ppali”

O sucesso do delivery na Coreia do Sul pode ser atribuído a fatores culturais do país. O “ppali ppali” pode ser traduzido como “rápido rápido” e é uma expressão usada para apressar uma pessoa. Essa expressão comum diz muito sobre a característica da sociedade coreana que prioriza a agilidade e eficiência.

Assim como pedir comida pelo delivery era uma solução para os sul-coreanos manterem a exigente demanda no trabalho, o próprio serviço de entrega segue a regra social do “ppali ppali”. Por causa da grande quantidade de restaurantes, em cidades como Seoul é possível receber seu pedido em menos de trinta minutos após pedir.

Rua na Coreia do Sul
A rapidez do delivery sul-coreano é um reflexo da própria sociedade
Créditos: 8minwoo/Pixabay

Existe uma exceção, no entanto. É dito que em dias de grandes eventos esportivos, os pedidos de frango frito crescem tanto que você pode ter que pedir com algumas horas de antecedência se quiser aproveitar seu esporte favorito com essa refeição clássica.

A eficiência do serviço também significa que você pode receber seu pedido em qualquer lugar. Pode ser em um prédio específico dentro de uma grande universidade, dentro de um parque enquanto faz um pic-nic ou até direto na sua cadeira em um estádio de beisebol.

Além disso, diferentemente do que acontece em muitas partes do mundo, você pode fazer um pedido de delivery a qualquer hora do dia. Muitos estabelecimentos ficam abertos 24 horas por dia, então se você quiser fazer um lanche da madrugada ou tomar um café da manhã em Seul sem esforço, é bem provável que conseguirá achar uma opção de delivery.


O lado sombrio da extensa cultura do delivery

Ter uma cultura do delivery tão extensa nem sempre é algo puramente positivo. Por um lado, trouxe praticidade para a vida de inúmeros sul-coreanos, além de render mais vagas de trabalho para aqueles que sofriam com desemprego. No entanto, são também os entregadores que mais sofrem com a popularidade do serviço.

A exigência da velocidade e a baixa remuneração forçam os entregadores a terem jornadas de trabalho extremamente longas e desgastantes. A maioria dos trabalhadores da área não tem diploma e não encontra outra opção de conseguir dinheiro se não atuando como entregador. Por isso, eles aceitam as condições degradantes na maior parte do tempo.

Moto de delivery
O eficiente serviço de entrega tem seu lado negativo
Créditos: Jonathan Marchal/Unsplash

A consequência é a pior possível. Alguns entregadores chegam a trabalhar 20 horas por dia para conseguir pagar as contas, às custas da própria alimentação e descanso. A exaustão prejudica a saúde deles e há casos de falecimento em decorrência disso. Além disso, vale considerar que são profissionais que trabalham no trânsito caótico o dia inteiro, acrescentando mais este risco.

Leia mais: Entregadores coreanos sofrem com o excesso de trabalho na pandemia da COVID

A demanda crescente de trabalho e a promessa das empresas de delivery de entregas ágeis só pioram a situação. Em março de 2021, entregadores fizeram um protesto contra a nova modalidade de entrega rápida da Baedal Minjok. Por causa do novo serviço, os entregadores passaram a precisar pegar apenas um pedido por vez para garantir a entrega a tempo. Sem poder levar mais pedidos em uma mesma viagem, a quantia que os profissionais conseguem tirar por hora reduziu drasticamente.

Os protestos apenas colocam mais luz sobre problemas que existem há anos neste mercado. O próprio governo sul-coreano reconheceu a gravidade da situação e prometeu instituir ações para dar mais segurança e direitos trabalhistas aos entregadores.

Assim, por mais que a cultura de delivery na Coreia do Sul seja avançada tecnologicamente e tenha uma longa história, nem tudo é perfeito. Para que o serviço no país continue fazendo jus a fama que tem, é importante que esta cultura do delivery seja exemplar em todos os sentidos.

Por Paula Bastos Araripe
Fonte: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11)
Imagens: Yonhap News, Andrea De Santis (Unsplash), Kim Manseok (Pixabay), fan4tian2 (Pixabay), Reprodução do App Baedal Minjok, 8minwoo (Pixabay), Jonathan Marchal (Unsplash)
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  • Paula Bastos Araripe

    Jornalista carioca que tem o k-pop como trilha sonora da vida. Multistan incorrigível, defensora de grupos (injustamente) desconhecidos e nostálgica da segunda geração do k-pop. Highlight (Beast) tem certificado vitalício como meu grupo ultimate.

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