Sociedade

A Xenofobia na Coreia do Sul

No dia 13 de setembro, Chen, um turista chinês de 50 anos, desembarcou na Ilha Jeju. Após quatro dias ele encontrou uma senhora coreana de 61 anos, parecida com sua ex-mullher, que o havia trocado por outro homem. Para Chen, a semelhança física entre elas foi motivo suficiente para esfaquear a coreana dentro de uma capela. Ela não resistiu aos ferimentos. O crime causou grande revolta na população, que agora exige que a política de visto aos chineses seja mais rigorosa.

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A lei atual permite que os chineses permaneçam na ilha por no máximo 30 dias sem a necessidade de um visto. No entanto, após o ocorrido, mais de 11 mil sul-coreanos assinaram uma petição online exigindo que o governo retire esse direito de turistas chineses, segundo o Korea Times. Além das tensões políticas e econômicas entre China e Coreia do Sul, outro dado que contribuiu para essa rivalidade é o fato de que a maioria dos estrangeiros apreendidos na ilha Jeju são chineses. Diante disso, o governo teme que o sentimento de xenofobia seja disseminado pelo país.

Apesar da pressão popular, é improvável que a lei seja alterada, pois além das questões diplomáticas, a medida também impactaria a economia. Estima-se que 90% das vendas de lojas duty free sejam provenientes dos turistas chineses. Além disso, dados de julho de 2015 indicam que os chineses representam cerca de 40% dos estrangeiros que mantêm propriedades em Jeju.

Há quem acredite que esse preconceito seja justificável dado o incidente de Chen. Porém, a xenofobia está fortemente presente e exposta no território sul-coreano. Bares que aceitam apenas coreanos são muito comuns, por exemplo. Megan Stuckey relata que uma vez foi a um bar em que havia uma placa na entrada: “Apenas coreanos são permitidos porque nossos funcionários não conseguem se comunicar em Inglês”. A jovem, então, perguntou, em coreano, se poderia entrar caso falasse a língua do país e mesmo assim foi rejeitada.

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Um caso parecido ocorreu em 2014 quando expatriados africanos foram barrados em um pub em Itaewon, região muito frequentada por jovens em Seoul. Do lado de fora do estabelecimento, lia-se uma placa: “Pedimos desculpas, mas devido ao vírus Ebola não estamos aceitando africanos no momento”.

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A irlandesa Katie Mulrennan também foi alvo de xenofobia quando se inscreveu para uma vaga de professora em Seoul, onde já morava há dois anos. Apesar de ser a candidata perfeita, visto que já havia trabalhado como professora de inglês por mais de três anos em Barcelona, Oxford, Abu Dhabi e, enfim, Seoul, Katie não conseguiu sequer a chance de uma entrevista. A resposta que recebeu do recrutador foi: “Lamento informar, mas o meu cliente não contrata irlandeses devido ao problema de alcoolismo natural de seu povo”. Ironicamente, um estudo de 2008 a 2010, realizado pela Organização Mundial de Saúde, mostrou que o consumo médio de bebidas alcoólicas per capita entre sul-coreanos com mais de 15 anos é de 12,3 litros, enquanto que na Irlanda a média é 11,9 litros.

A Coreia do Sul é signatária da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951 das Nações Unidas, que obriga o país a proteger e fornecer direitos básicos e serviços sociais aos refugiados. No entanto, as vítimas que buscam asilo ainda encontram resistência, seja pelas rigorosas políticas de controle do país ou pela xenofobia. Em 2014, a Coreia do Sul recebeu apenas 94 refugiados dentre os 2.900 que buscaram o apoio do país.

 

RAÍZES HISTÓRICAS

SEOUL, SOUTH KOREA - JUNE 25: Tens of thousands of South Korean soccer fans gather to watch a telecast of the World Cup semi-final match between South Korea and Germany June 25, 2002 in central Seoul, South Korea. Germany beat South Korea 1-0 reach the World Cup final for a seventh time. (Photo by Chung Sung-Jun/Getty Images )
SEOUL, SOUTH KOREA – JUNE 25: Tens of thousands of South Korean soccer fans gather to watch a telecast of the World Cup semi-final match between South Korea and Germany June 25, 2002 in central Seoul, South Korea. Germany beat South Korea 1-0 reach the World Cup final for a seventh time. (Photo by Chung Sung-Jun/Getty Images )

 

A história da Coreia do Sul foi marcada por frequentes invasões dos países vizinhos. Após serem subjugados repetidamente, os sul-coreanos desenvolveram um forte sentimento de nacionalismo, considerando-se “sangue puro”, mantendo costumes patriarcais tradicionais, segundo Seol Dong-hoon, sociólogo da Universidade Nacional Chonbuk.

Séculos atrás, quando as mulheres coreanas eram levadas para a China como prêmios de guerra e forçadas à escravidão sexual e depois conseguiam voltar para casa, eram discriminadas por suas comunidades, que as consideravam “contaminadas”. O mesmo acontecera com as escravas sexuais do Exército Imperial Japonês. Mais tarde, as mulheres que vendiam sexo aos americanos nos anos seguintes à Guerra da Coreia (1950-1953) eram desprezadas ainda mais. Seus filhos eram rejeitados e chamados de “twigi”, um termo utilizado para referir-se aos os híbridos de animais, afirmou Bae Gee-Cheol, 53, cuja mãe foi expulsa de sua família depois de ser estuprada por um soldado americano e dar à luz.

Para muitos coreanos, o primeiro contato com não-asiáticos ocorreu durante a Guerra da Coréia, quando as tropas americanas lutaram ao lado da Coreia do Sul. O sociólogo Seol acredita que essa experiência tem complicado as percepções raciais dos sul-coreanos. Hoje, a mistura de inveja e ódio do Ocidente, especialmente dos americanos, é evidente na vida diária.

Em 2007, a Comissão das Nações Unidas para Eliminação da Discriminação Racial recomendou que a Coreia do Sul adotasse uma lei anti-discriminação, lamentando a utilização generalizada de termos como “sangue puro” e “sangue misturado”. A comissão ainda alertou sobre a necessidade da educação pública superar a noção de que a Coreia do Sul é “etnicamente homogênea”, pois tal afirmação “já não corresponde à situação real.”

No entanto, um fórum para discutir a proposta de legislação contra a discriminação racial se transformou em um fervoroso debate online entre diversos críticos. Eles afirmavam que tal lei só iria incentivar ainda mais a entrada de trabalhadores migrantes na Coreia do Sul, empurrando os trabalhadores nativos para fora do mercado de trabalho e criando favelas infestadas de crimes. Ainda segundo eles, é muito difícil definir o que é racialmente ou culturalmente ofensivo.

 

PROBLEMA DE ORDEM JURÍDICA

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Infelizmente, na Coreia do Sul não é tão incomum encontrar estabelecimentos que vetam a entrada de estrangeiros. Em junho de 2015, o jornal The Observer publicou uma matéria sobre uma sauna no distrito turístico de Busan que recusava a entrada de pessoas que “pareciam estrangeiras”, a fim de tranquilizar seus clientes coreanos. “Eles causam muitos problemas”, um funcionário disse ao jornal.  No entanto, apesar da revolta popular em relação a essas atitudes discriminatórias, tais políticas não são ilegais.

Embora a existência de locais que só aceitam coreanos possa parecer inofensiva para alguns, afinal, existem milhares de outros lugares que os estrangeiros podem visitar – a questão aponta para um problema maior. A Coreia do Sul, ao contrário dos Estados Unidos e da maioria dos outros países desenvolvidos, não tem leis contra a discriminação em estabelecimentos, mesmo com o crescimento de uma população mais multicultural. Até mesmo as Nações Unidas estão cientes do problema. Em 2014, o especialista em Direitos Humanos da ONU Mutuma Ruteere solicitou que a Coreia promulgasse leis abrangentes para lidar com “o racismo, a xenofobia e a discriminação”, após sua primeira visita oficial ao país. Ele lembra de ter visto mulheres naturalizadas coreanas sendo proibidas de entrar em casas de banho públicas, motoristas de táxi que denunciaram passageiros de aparência estrangeira para a polícia e assistentes de lojas com atitudes depreciativas em relação a estrangeiros.

Segundo Ruteere, é dever do governo evitar a proliferação de movimentos racistas e xenofóbicos. Além de ações educativas voltadas a essas questões, o especialista da ONU alegou que a mídia também deve agir de maneira extremamente sensível e responsável para não perpetuar estereótipos e que, quando algum veículo cometer algum ato que contribua para a disseminação da xenofobia, ele seja punido adequadamente. Quando questionado sobre as políticas voltadas ao multiculturalismo, muitas vezes vistas com maus olhos por aqueles que  preferem chamar de “assimilação cultural”, Ruteere argumenta: “meu entendimento de multiculturalismo é reforçar o conhecimento intercultural. Não é uma via de mão única, mas dupla. Os coreanos têm muito a aprender com seus imigrantes e a cultura dos imigrantes. O verdadeiro multiculturalismo significa aprendizado de ambos os lados”.

No entanto, seria injusto dizer que não houve nenhum esforço do governo em mudar a situação enquanto o país abre suas fronteiras aos imigrantes por razões econômicas e sociais. Em 2008, a Lei de Apoio Às Famílias Multiculturais foi decretada a fim de fornecer serviços sociais aos imigrantes e seus filhos. Também houveram esforços para criar leis anti-discriminatórias em 2007, 2010 e 2012, embora muitas dessas tentativas tenham falhado devido à forte oposição de grupos cristãos de direita.

Vertentes mais otimistas enxergam o problema de outra maneira. Além de a Coreia do Sul ainda ser uma democracia relativamente jovem, os problemas de imigração são complexos, devido à variedade de categorias de imigrantes. Para piorar, o país ainda recebe um grande fluxo de desertores da Coreia do Norte, que também enfrentam discriminação ao chegarem. Considerando todas essas questões e comparando ao seu vizinho mais velho e igualmente homogêneo, o Japão, que também não possui leis anti-discriminação suficientes, a Coreia do Sul pode até estar em um ritmo acelerado. Afinal de contas, os Estados Unidos demoraram quase 200 anos após a declaração da independência para decretar a Lei dos Direitos Civis de 1964.

 

Por Erika Nishida
Fontes: Sina, The Guardian, USA Today, The New York Times, Korea Herald e City Lab
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[Setembro Amarelo] Ações desenvolvidas por empresas sul-coreanas para diminuir as taxas de suicídio

A Coreia do Sul é um dos países com a mais alta taxa de suicídio do mundo, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O incentivo secular para a competitividade social, problemas financeiros, o abandono dos idosos e a cultura de ver a morte com uma saída para uma vida difícil, são os principais fatores para o aumento gradativo das taxas de suicídio.

Em meio às taxas alarmantes de suicídios, diversas empresas apontam soluções para a redução dessas mortes. Listamos as 4 principais ações tomadas pelo governo e por empresas coreanas para frear a crescente dos suicídios.

Neste experimento, funcionários entram em caixões, que são fechados por um 'Anjo da Morte'
Neste experimento, funcionários entram em caixões, que são fechados por um ‘Anjo da Morte’

SEPULTADOS VIVOS

Uma empresa de recursos humanos submeteu seus funcionários a encenarem seus próprios funerais, como uma espécie de treinamento para conhecerem o sentimento que envolve a morte.
O tradicional velório coreano é encenado completamente. Vestidos em roupões brancos, escrevem suas cartas de despedida para os parantes, logo após sobem em seus caixões de madeira e deitam-se, abraçados em uma foto de si mesmos, envolvida por uma fita preta.

 

Os caixões são então fechados por um homem vestido de preto, representando o Anjo da Morte. Lá, os funcionários são incentivados a refletirem sobre o sentido de suas vidas, com a ajuda de psicólogos. Para estar neste lugar, eles são preparados com vídeos de pessoas que já enfrentam adversidades como câncer, doenças terminais, deficiências e que ainda assim seguem suas vidas com qualidade.

 

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CURSO DE BEM-MORRER

Uma associação para idosos passou a oferecer em 2014 o curso “Bem-Morrer”, com seis semanas de duração, buscando mostrar aos seus alunos como apreciar a vida através da preparação para a morte. As aulas de “bem-morrer” — uma brincadeira com a expressão “bem-estar” — reflete os esforços para combater a mais alta taxa de suicídio de idosos do mundo, num país onde a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) avalia que 37% da população terá mais de 65 anos até 2050.
“Os sul-coreanos tendem a pensar na morte como um modo rápido de acabar com as dificuldades” — diz Park Hoon, pesquisador do instituto de pesquisas sobre a vida e a morte da Universidade de Hallym em Chuncheon, perto de Seul. — “Mas a morte deveria ser vista como um lembrete de como a vida é preciosa e do porquê vale tanto a pena viver.” Esse é o objetivo do curso de “bem-morrer“, tentam ensinar seus alunos idosos a natureza positiva da morte.

PONTE DA VIDA: A CAMPANHA QUE REDUZIU OS SUICÍDIOS

A empresa Seguro Samsung é a idealizadora de uma das ações mais conhecidas e bem sucedidas para a redução das taxas de suicídio. A campanha publicitária teve início em dezembro de 2012, tendo por mote evitar que o governo coreano fechasse ou construísse muros na ponte Mapo, em Seul – uma das 27 que cruzam o Rio Han – na tentativa de evitar suicídios.

Antes conhecida por “Ponte Suicída”, agora leva o título de “Ponte da Vida”, devido a campanha, que conseguiu reduzir em 85% as taxas de suicídio naquele lugar, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O projeto levou um ano e meio para ser aplicado, rendendo aos executores o prêmio Cannes Lion, em 2013.
Toda a vez que alguém se aproximasse das laterais, um sensor ativava as luzes próximas a borda de segurança, que muitos usavam para subir e se jogar de lá. Em frente a barra de luzes aparecia ao longo da ponte 20 frases pensadas para a prevenção do suicídio como: “Os melhores momentos da sua vida ainda estão por vir”, “Como você gostaria ser lembrado?” e “Vá ver as pessoas de quem você sente saudade”.

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Entretida com as frases, as pessoas cruzavam a ponte, chegando seguras ao outro lado, sem executarem a tentativa de suicídio. Para acompanhar as frases, você encontra também uma estátua de um amigo reconfortando o outro, que é um dos grandes marcos da campanha.

 

APP CONTRA O SUICÍDIO JUVENIL

O Ministério da Educação da Coreia do Sul apresentou em 2015 um App para smartphones destinado a reduzir o suicídio entre os jovens, alertando os pais de crianças consideradas em perigo. O app era programado para deletar palavras “ligadas ao suicídio”, que surgissem nas redes sociais, serviços de mensagens ou em buscas na internet feitas pelo smartphone. Em caso de alerta, os pais recebiam uma mensagem no seu próprio celular, avisando sobre o conteúdo das informações.
“O suicídio dos jovens tornou-se num problema social cuja prevenção necessita de medidas sistemáticas e ambiciosas”, afirmou o ministério em comunicado.

O principal ponto para que as taxas de suicídio sejam reduzidas é transformar o estilo e a cultura do país, principalmente incentivando que as pessoas se importem com o bem-estar uns dos outros. De forma que entendam que a vida é muito além de ter notas altas, ter muito dinheiro ou deixar de ser o provedor da renda familiar. Cada ação dessa contribui para que o caminho certo seja tratado e precisam ser estimuladas.

 

Por Naira Nunes
Fonte: BBC; O Globo; Design Culture; SIC Notícias; EXAME.
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[Setembro Amarelo] Coreia do Sul e estatísticas que assustam

AVISO: Este texto é estatístico e um tanto técnico, que visa informar e conscientizar, porém pode gerar desconforto.

Neste mês de Setembro há uma intensa campanha contra o suicídio, que segundo a Organização Mundial da Saúde,  90% dos casos poderiam ser evitados.

E se tem algo que quando se menciona Coreia do Sul precisa ser falado, é suicídio. A Coreia é o segundo país onde mais pessoas tiram a própria vida, perdendo apenas a Guiana. E por que isso ocorre? Bem o suicídio está ligado à profunda depressão emocional e a qualidade de vida em sociedade. O alcoolismo, ansiedade e síndrome do pânico, são alguns dos sintomas que antevem uma parcela da população que está doente.

Apenas no país são cerca de 40 mortes por dia, se tornando a 4º causa mais comum de morte e a primeira entre pessoas de 10 a 39 anos, acima do câncer e dos acidentes de trânsito¹.

Taxas de suicídios por 100.000 pessoas. Fonte: OECD

O suicídio relacionado ao gênero

Em termos estatísticos os homens tem uma taxa de suicídio maior que a das mulheres, porém elas ganham em tentativas. Por meio de estudos concluiu-se que os homens utilizam métodos mais letais e portanto, tem uma taxa maior de conclusão. Além disso, as mortes femininas aumentaram nos últimos anos, 282% contra 244% dos homens². Os motivos podem estar relacionados com os problemas enfrentados pelas mulheres, já apontados numa matéria da KoreaIN.

Taxa de suicídio na Coreia do Sul por gênero e idade. Fonte: OMS, 2012.

O suicídio relacionado a idade

Uma das razões para a Coreia do Sul estar tão alta no ranking mundial de suicídios é pelo alto índice entre os idosos. Apesar do país ser desenvolvido, há uma grande taxa de pobreza entre os mais velhos. Isso ocorre devido ao sistema deficitário da previdência sul-coreana, a população tem que ser autossuficiente até o fim da vida. Assim muitos idosos acabam tirando a própria vida para não se tornar um fardo financeiro para a família, um vez que a cultura dos “filhos cuidarem dos pais” vem desaparecendo. Pessoas da zona rural tem a taxa de suicídio ainda mais elevadas, resultante do abandono.

Os mais jovens tradicionalmente cuidavam de seus pais idosos, mas essa estrutura social foi quebrada ao longo dos anos, deixando muitos idosos incapazes de se alimentar.
Os mais jovens tradicionalmente cuidavam de seus pais idosos, mas essa estrutura social foi quebrada ao longo dos anos, deixando muitos idosos incapazes de se alimentar.

Porém o grupo que lidera o ranking são os estudantes e universitários. Segundo o Instituto de Políticas para a Juventude, um em cada quatro estudantes tentou o suicídio pelo menos uma vez. O ambiente hiper-competitivo tem minado os jovens. Já mencionamos o documentário “Reach for the SKY”, em que mostra como uma grande parte da população em idade de estudo está sofrendo de depressão e são os pais as principais fontes de pressão para o sucesso do aluno. Pais exigentes, professores autoritários, longos cursinhos tem cobrado um preço alto da saúde dos jovens.

Muitos jovens se sentem pressionados para conseguirem boas notas.
Muitos jovens se sentem pressionados para conseguirem boas notas.

O suicídio relacionado ao status econômico

Outro fator que pode ser decisivo a causa da depressão e por fim o suicídio é o poder aquisitivo. Este está intimamente relacionado aos grupos mencionados anteriormente, levando em consideração que na Coreia do Sul o nível econômico está relacionado ao nível educacional do indivíduo. Muitos jovens, principalmente em época de vestibular, sofrem pressão social causando stress, sono inadequado, uso de álcool e cigarro; e quando associados ao baixo índice econômico se tornam quase uma bomba relógio.

Isso também afeta os idosos, devido o fator de dificuldade econômica. Cerca de 71,4% da população idosa é ignorante e 37,1% deles vivem em áreas rurais³. Assim sendo, eles são mais propensos a enfrentar problemas financeiros, o que pode levar a problemas de saúde e conflitos familiares.

Taxa de pobreza por faixa etária. Fonte: OECD, 2011.

Em épocas de crises financeiras, como a crise financeira asiática de 1997 e a recessão econômica de 1998, que gerou uma onda de desemprego, houve um aumentou da depressão clínica e suicídios no país.

Em 2014 o pai e avós do cantor LeeTeuk do Super Junior foram encontrados mortos, provavelmente devido a problemas financeiros e de saúde. Em nota o pai escreveu: “Vou levar os meus pais e ir para o céu junto, para vivermos bem. Eu sinto muito pelos meus filhos.”

O suicídio relacionado a mídia 

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A atriz Lee Eun-ju.

Muitas celebridades acabam por tirar a própria vida ao perder a fama ou receberem duras críticas. Há diversos casos conhecidos de suicídio entre celebridades, um dos casos mais conhecidos é da atriz Lee Eun-ju de TaegukgiThe Scarlet Letter. Em fevereiro de 2005, após se formar na Universidade de Dankook ela retornou ao seu apartamento, onde cortou os pulsos e se enforcou. Sua família disse que ela tinha crises de depressão e insônia, após ter realizado cenas de nudez no filme The Scarlet Letter.

Em uma nota escrita com sangue a atriz disse: “Mãe eu sinto muito e te amo”, e em outra mensagem separada escreveu: “Eu queria muito fazer isso. Mesmo que viva, eu não estou viva realmente. Eu não quero que ninguém se desaponte. É bom ter dinheiro… Eu queria ganhar dinheiro.” Sua morte casou comoção entre amigos e familiares, a cantora Bada cantou em seu velório a canção “You Were Born to be Loved“.

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A cantora U;Nee. Após sua morte sua mãe confirmou que ela sofria de depressão e tomava medicamentos.

Outros casos conhecidos foram do ex-presidente Roh Moo-hyun, da modelo Daul Kim, ambos em 2009, da artista U; Nee em 2007, a “atriz da nação” Choi Jin-sil em 2008 e seu ex-marido Cho Sung-min, em 2013. A participante de um reality show de namoro do canal SBS foi encontrada morta em pleno set, o que levou o cancelamento do programa em 2014. A participante, do também reality “Baby Kara”, Sojin chegou a ser levada ao hospital, mas a cantora não aguentou.

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Após a confirmação da Sojin, a DSP Media declarou: “Acabamos de ouvir essa triste notícia hoje. Faremos o que pudermos para ajudar a família“

E após a morte de celebridades, a Coreia do Sul tende a sofrer uma onda de suicídios. Em um estudo realizado com a cobertura da mídia há uma forte correlação de eventos catastróficos e morte de celebridades com o aumento das taxas de suicídio. Além disso, os métodos utilizados por celebridade suicidas tendem a ser repetidos. Após a morte da atriz Lee Eun-ju, mais pessoas se mataram por enforcamento.

A ideia do fracasso na sociedade coreana não é bem aceita e assim se torna uma grande vilã. Criticas na internet, perda de dinheiro, declínio profissional, não atingir a nota almejada no vestibular ou se sentir um fardo para a família, são exemplos que atingem diretamente a honra dos coreanos e assim afeta seu psicológico. Campanhas do governo tem sido implementadas para mudar o pensamento, afinal é importante que haja uma mudança social. Não é ruim falhar, pois estas coisas fazem parte da vida, ruim é julgar e mais ainda humilhar. Quebrar um paradigma cultural é necessário, para que então a Coreia do Sul não seja mais reconhecida como a “república do suicídio”.

¹ Dados do Escritório de Estatística de Seul
² Gender Differences in Suicidal Behavior in Korea. 2008
³ Socioeconomic Inequalities in Suicidal Ideation, Parasuicides, and Completed Suicides in South Korea. 2010

Por Amanda Soares
Fontes: OMS, Aljazeera, UOL, Korea Herald, Korea Exposé, CNN, BBC.
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[Setembro Amarelo] O problema oculto da Coréia: Desertores suicídas

O mês de setembro reserva para ele a campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, com o objetivo direto de alertar a população a respeito da realidade do suicídio no mundo e suas formas de prevenção. A Coreia do Sul é um dos países com as mais altas taxas de suicídio do mundo. A KoreaIN se vê no dever de trazer para vocês uma série de informações sobre a prevenção do suicídio. Vamos falar sobre isso? Falar é a melhor solução!

Em todo o mundo, as pessoas fogem aos milhões de regimes tirânicos, mas quantas vezes elas encontram a vida melhor que estavam esperando? Na Coreia do Sul, as estatísticas indicam que um número surpreendente de desertores do Norte acabam tirando suas próprias vidas.

Você sempre ouve sobre os desertores celebridades. Eles escrevem best-sellers e aparecem na televisão. Eles podem ganhar dezenas de milhares de dólares por noite em uma palestra. Eles são eloquentes como eles contam suas histórias angustiantes de voos perigosos de extrema opressão.
Mas às vezes há um lado mais sombrio das histórias daqueles que fogem do seu país natal.
Na Coreia do Sul, as estatísticas revelam uma verdade. O Ministério da Unificação do país diz que ao longo dos últimos 10 anos, 6% a 7% de desertores que morreram se mataram. Mas nos últimos meses, tem havido um grande aumento – de acordo com o ministério, 14% das mortes entre os desertores este ano foram suicídios. Isso é muito maior do que entre a população em geral, e a Coreia do Sul de forma consistente tem a maior taxa de suicídio de todos os 34 países industrializados da OCDE.

 

North Korean defectors tell their harrowing stories on a South Korean TV show
North Korean defectors tell their harrowing stories on a South Korean TV show

 

Há uma série de fatores envolvidos. Uma delas é que a casa que eles deixaram está perto, mas inacessível. Outra é que a sua nova realidade econômica pode ser muito diferente da vida glamourizada retratada nas novelas sul-coreanas contrabandeadas para o Norte.

Kim Song-il está agora em sua sétima linha de negócio desde que ele desertou há 14 anos. Já foi motorista de ônibus, operário de construção e teve um restaurante. Agora começou seu próprio negócio vendendo pedaços de frango. Ele compra frangos inteiros e contratou alguns funcionários para cortá-los, empacotá-los e congela-los, para que possam ser vendidos – o preço das peças combinadas é maior do que o custo do frango inteiro.

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É uma luta. “Quando meus negócios anteriores falharam, eu tentei me matar três vezes”, diz ele. “Eu tinha que ficar me lembrando como eu arrisquei minha vida só para chegar aqui.

Parte de sua dificuldade, diz, é que ele era um oficial militar no Norte e foi usado para dar ordens. Receber ordens como um empregado no capitalismo não tem sido fácil.
Em 2014, foram 1.400 desertores. O fluxo vai todo por um caminho – Norte a Sul. Ou quase todos de um jeito. Quarenta e cinco anos de idade, Kim Ryen-hi deu uma conferência de imprensa em lágrimas recentemente e anunciou que ela quer ir para casa. Há quatro anos, ela chegou na Coreia do Sul através da China e da Tailândia, mas agora sente muita falta do Norte.
Liberdade, coisas materiais e outras atrações de qualquer tipo, eles não são tão importante para mim quanto a minha família e minha casa”, disse ela. “Eu quero voltar para a minha família preciosa, mesmo se eu for morrer de fome.

 

Kim Ryen-hi ainda está na Coreia do Sul, impossibilitada de volta para o Norte.
Kim Ryen-hi ainda está na Coreia do Sul, impossibilitada de volta para o Norte.

 

Ela é muito mais uma exceção – e há aqueles que têm sucesso no Sul. Lee Yung-hee é empresária. Ela desertou há 14 anos e agora dirige um movimentado restaurante – Max Tortilla – duas horas saída de Seul.
No Norte, ela nunca tinha ouvido falar deste clássico prato mexicano, mas quando chegou ao Sul inicialmente consegui um emprego como vendedora de kebabs – carne enrolada no palito – e pensou que a adição de arroz iria atender o gosto coreano ainda mais. O resultado, ela descobriu que era similar a um burrito, então entrou no “mercado de burritos” – com muito sucesso. Iniciativa e trabalho duro valeram a pena.
Quando cheguei aqui pela primeira vez o Sul parecia tão diferente”, diz ela. “Para ter sucesso, eu tive que aprender tudo do zero.

Lee Yung-hee (primeiro plano) abriu um restaurante de sucesso.
Lee Yung-hee (primeiro plano) abriu um restaurante de sucesso.

Desertores recebem um treinamento de três meses quando chegam, mas os críticos do sistema dizem que não é o suficiente para aprender novas habilidades. O governo responde que os próprios desertores não querem períodos prolongados de escolaridade.

Alguns grupos cristãos oferecem formação profissional e dizem que o melhor é a formação em habilidades simples, mas úteis, como fazer café para servir em Cafés.
Mas a falta de oportunidades, além de empregos humildes como este, é uma fonte de descontentamento.
De acordo com um levantamento, 50% descreveram seu status no Norte como de classe “superior” ou “média”, mas apenas 26% disseram que caíram nesta categoria no Sul. A grande maioria – 73% – descreveram seu novo status como classe baixa.
Andrei Lankov, um historiador da Universidade Kookmin em Seul, que também estudou em Pyongyang, diz que o problema é que as habilidades adquiridas no Norte são insuficientes para a economia sul-coreana moderna. Os médicos desertores, por exemplo, muitas vezes não conseguem empregos na medicina sul-coreana.

 

Médicos coreanos desertores encontram dificuldades para conseguir empregos na Coreia do Sul.
Médicos coreanos desertores encontram dificuldades para conseguir empregos na Coreia do Sul.

O problema oculto consiste em desesperados norte-coreanos que estão sós e à deriva na Coreia do Sul, oscilando à beira de tirar suas próprias vidas, e às vezes passando desse limite.

 

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Quinze anos atrás, Kim Cheol-woong foi um pianista de sucesso vivendo na Coreia do Norte – mas sua vida mudou de repente quando alguém o ouviu tocando uma canção de amor ocidental.
Os desertores Norte coreanos precisam receber a devida atenção dos governos que os acolhem, seja a Coreia do Sul, a China ou os EUA. A decisão de fugir de seu país de origem é causadora de traumas, que se não cuidados podem resultar nas altas taxas de suicídio que a Coreia do Sul tem enfrentado.

Tradução e adaptação: Naira Nunes
Fonte: BBC + Setembro Amarelo
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A indústria do K-pop é racista?

Como anfitrião das Olimpíadas, o Brasil aproveitou o mega evento esportivo para enaltecer uma das suas principais características: a diversidade. Mas o fato de ela existir não significa que ela seja respeitada. Infelizmente, o preconceito está enraizado em nossa cultura e muitas vezes passa despercebido, disfarçado de “piada”, “opinião” ou simplesmente um “comentário ingênuo”. Qual fã de K-pop nunca ouviu alguma piada racista ao falar que é fã da cultura coreana? Os asiáticos, em geral, são frequentemente representados por estereótipos e de forma ridicularizada. Esse desrespeito sempre causa uma grande revolta por parte das vítimas e dos fãs. Mas, será que esses que se encontram em posição de vítima também não são agressores em seu país?

É importante ressaltar que, obviamente, não podemos e nem devemos generalizar, mas nosso objetivo aqui é mostrar como a questão do preconceito é mais comum do que imaginamos, principalmente quando se trata da indústria K-pop. Uma pesquisa realizada em 2013 pelo Washington Post revelou que a Coreia do Sul é um dos países menos racialmente tolerantes do mundo. Segundo os dados, “mais de um a cada três sul-coreanos afirmam não querer um vizinho de uma etnia diferente”.

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Existem diferentes teorias sobre o surgimento do preconceito contra negros na Coreia do Sul, por exemplo. A explicação histórica diz que no passado os trabalhadores passavam o dia todo debaixo do sol trabalhando nas fazendas agrícolas, enquanto os ricos ficavam apenas dentro de casa e, portanto, tinham a pele bem mais clara. Por esse motivo, ter a pele bronzeada significava que você pertencia à classe trabalhadora, ou seja, pobre, daí o preconceito. Já outros acreditam que essa aversão seja resultado do medo do desconhecido, visto que a Coreia do Sul é um país muito homogêneo (98% são nativos, enquanto apenas 2% são estrangeiros). Por fim, há quem diga que tudo isso é apenas mais uma das grandes influências dos Estados Unidos.

Independentemente da sua origem, o fato é que o preconceito é disseminado em rede nacional, sendo utilizado como mero instrumento para arrancar risadas da plateia em programas de TV, ganhar audiência e lucrar com estilos e conceitos de álbuns e videoclipes. A situação se torna ainda mais agravante quando artistas, os formadores de opinião, cujas vozes são ouvidas em escala mundial, reproduzem esse sentimento por meio de tuítes e posts no Instagram.

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O blackface, ato de maquiar pessoas brancas para se passarem por negras, ganhou popularidade nos Estados Unidos no século 19 e começou a ser copiado pela Coreia em programas de comédia. A prática foi suspensa antes das Olimpíadas, pelo receio de ofender os atletas africanos. No entanto, o blackface ressurgiu em 2003 com o grupo Bubble Sisters, cuja imagem era baseada totalmente nessa prática, incluindo a capa do álbum e todos os vídeos. Entre os artistas que também já se envolveram nessa polêmica estão: G-Dragon e DaeSung (Big Bang), KiKwang (BEAST) e Jackson (GOT7)

Vale ressaltar que o conceito de “negro” para os sul-coreanos é bem diferente do nosso. Qualquer um com a pele um pouco mais bronzeada já se torna alvo de piadas. Durante um evento, enquanto os funcionários arrumavam as cadeiras para os integrantes do EXO se sentarem, ChanYeol comenta para Kai: “até sua cadeira é escura”. Outras piadas do tipo, atacando o mesmo artista, também já circularam na mídia. Em uma exposição da SM Entertainment, o apresentador pergunta a TaeMin (SHINee) qual é a fraqueza de Kai, e a resposta é: “a pele dele é tão escura”.

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Alguns grupos com grande influência do hip-hop, como Big Bang e 2NE1, são constantemente criticados por se apropriarem de elementos da cultura negra em seus vídeos, sem a presença de qualquer dançarino ou ator negro. A população negra foi, e ainda é, extremamente segregada nos Estados Unidos, o que forçou essas pessoas a criarem sua própria maneira de falar e a sua própria cultura. Utilizar esses elementos como se fossem apenas uma “fantasia” pode ser extremamente ofensivo. Afinal, se criticamos quando homens se vestem como mulheres com fim humorístico, ou quando asiáticos são representados como nerds, obcecados pelo estudo e antissociais, por que devemos enxergar essa representação da cultura negra apenas como “homenagem” ou “entretenimento”?

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Cena de Badman, do music video do grupo B.A.P

Srividya Ramasubramanian, professora de comunicação na Texas A&M University, realizou uma pesquisa com 450 jovens caucasianos, constatando que a exposição a personagens negros estereotipados na televisão aumenta a probabilidade de associar características como “preguiçoso” ou “bandido” às pessoas negras e diminui a propensão a apoiar políticas públicas. Essa má representação acontece inclusive em MVs, ainda que passe despercebida, como no caso de Badman, do B.A.P. Já um exemplo concreto desse pensamento preconceituoso é uma frase dita por Seungri, do Big Bang, durante uma turnê do grupo nos Estados Unidos. O cantor teria entrado na van errada e declarou ter ficado aliviado ao saber que o dono do veículo era branco, porque se fosse negro, poderia ter levado um tiro.

Tiger JK e Yoon Mirae também já presenciaram o preconceito de perto. Em 2010, o casal levou o filho Jordan ao programa Yu Hui Yeol’s Sketchbook. Após a aparição da criança, alguns artigos foram publicados sobre a participação da família e diversos comentários começaram a surgir criticando a aparência do menino, que na época tinha menos de 2 anos de idade. Tiger JK ficou furioso e postou uma série de tuítes condenando as frases racistas. Já Yoon Mirae, sendo filha de um afro americano e morando na Coreia do Sul, sofreu discriminação desde a infância.

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Estes são apenas alguns exemplos de como o racismo ainda está muito presente no K-pop. Mas a realidade de quem vivencia essa intolerância é ainda pior. Como fãs, é nosso dever condenar atitudes como essas. Quando ídolos se envolvem em assuntos polêmicos, a primeira reação de muitos fãs é defende-los a fim de “preservar a imagem”. No entanto, essa aceitação, essa tentativa de sempre proteger e defender artistas não importa qual seja o seu erro, significa um passe livre para que eles continuem agredindo física e moralmente outras pessoas. Por isso, os fãs também devem ter consciência da sua responsabilidade em criar uma cultura que não tolere o racismo.

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No início deste ano, TaeYang (Big Bang) decidiu celebrar o ano novo lunar com um aplicativo que permite ao usuário “utilizar o rosto” de qualquer pessoa. Ele, então, escolheu um filtro que o “transformava” em Kanye West e desejou a todos do Instagram um “Feliz Ano do Macaco”. A foto foi bombardeada com críticas de fãs enfurecidos que se sentiram extremamente ofendidos e indignados com a atitude. Logo em seguida a publicação foi deletada e Taeyang se desculpou. Exemplos como esse mostram a força e importância dos fãs nessa luta. É nosso dever exigir uma postura ética dos nossos ídolos e criticá-los, sim, quando necessário. Contamos com a ajuda de todos para coibir práticas racistas como essas e lutar por um K-pop que seja para todos!

E você? Lembra de algum outro caso que não foi citado aqui? Conta pra gente nos comentários!

Fontes: Groove Korea, SarangInGayo, Owning My Truth, Seoulistic, allkpop, Nexo
Por Erika Nishida

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[Crônicas da Coreia] A surpreendentemente calorosa recepção coreana

Os leitores que nos acompanham há um tempinho devem saber que duas de nossas colaboradoras foram à Coreia no começo do verão coreano (ou inverno brasileiro). Naira e eu fomos convidadas pelo Naver V Live App à assistir o showcase de comeback do EXO, com o álbum EX’ACT, em uma das mais maravilhosas experiências que já tivemos desde que começamos a nos envolver com o K-pop. E isso será assunto em um próximo capítulo.

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Pra quem não conhece ainda, me chamo Carol Akioka e tenho 23 anos, sendo 5 deles dedicados à KoreaIN Magazine. Trabalho como corretora de imóveis e cuido da revista nas horas vagas (ou seria ao contrário? haha!). Através dessa série Crônicas na Coreia, queremos passar um pouquinho das “aventuras” que tivemos nessa primeira viagem internacional da vida, ainda mais para um lugar tão sonhado por nós (e muitas vezes por vocês!).

Lembro que essa é apenas a minha opinião, de uma turista brasileira que passou duas semanas em terras coreanas, e que de forma alguma é a verdade absoluta. Pode significar que tive uma sorte incrível, então se tiverem dúvidas ou comentários, gostaria muito de ouvi-los.

Estaria tudo bem se fosse uma viagem planejada, porém soube da possibilidade da viagem num dia e no seguinte já estava embarcando sem saber direito onde ficar, o que fazer, onde comer. Para falar a verdade, mal sabia o que estava levando na mala, que tinha feito completamente de última hora.

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Mil malas, mas o que tem nelas?

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Uma dica importantíssima: Antes de comprar as passagens, verifique onde será sua conexão. A Coreia do Sul não exige visto de brasileiro até 90 dias com a finalidade de turismo. A princípio íamos viajar pela Korean Air, porém pouco antes de comprar vimos que as escalas dessa companhia são nos Estados Unidos. Para isso, íamos precisar de visto americano ou visto de trânsito, coisa que não tínhamos e que não iríamos conseguir em 1 dia. O responsável pela viagem foi super compreensivo e nos reservou outro voo, mas por não ter mais lugar disponível, eu e Naira fomos por companhias diferentes: eu pela Qatar Airways com escala no Qatar e ela pela Emirates com escala em Dubai. Ambos trajetos não exigem visto para brasileiros.

Outra dica: Vá confortável! O trajeto é mega longo e cansativo, quase 14 horas até o Qatar e mais 8 horas até a Coreia. Acho incrível que idols ainda cheguem animados quando vêm para shows aqui no Brasil.

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Imagem: Yes and Yes

Reservei o hostel enquanto esperava o embarque no avião. Simplesmente usei a mesma técnica que uso quando viajo nacionalmente: o mais barato e perto do metrô. Caímos em um tal de Kimchee Downtown Guesthouse, em Chungjeongno, na frente da estação. Apesar de escolhido às pressas (e do ótimo valor), aquele lugar tem algum tipo de “luz”, se me permitem assim dizer. As pessoas ali são ótimas! O ambiente é tão confortável que após 2 dias, já estava chamando de “casa”. O lugar era simples, mas aconchegante e com uma ampla área social.

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Lembro que um dia chegamos umas 4 horas da manhã e encontramos o pessoal cantando e dançando “Ai se eu te pego“, animadíssimos no hall. Outro dia que meu cartão foi bloqueado, fiquei quase uma hora no celular do gerente do hostel com o atendente do banco aqui no Brasil. Detalhe: quem me salvou e encontrou o número para ligar foi ele.
Este hotel tem um sistema legal, onde as pessoas podem ajudar na limpeza e na recepção e trocar por hospedagem. Vale a pena dependendo de quanto tempo você for ficar na Coreia.

Encontramos pessoas incríveis ali, coreanas e internacionais. Uma família filipina me chamou atenção. Duas irmãs e suas duas primas na faixa dos 14 anos viajaram com o pai e a avó até a Coreia para tentar encontrar o Seventeen. Elas tomavam banho cantando ‘Mansae‘ tudo errado… igual eu.

Uma das minhas companheiras de quarto era coreana e mora na Austrália há 2 anos. Voltou à Coreia para buscar uma documentação para tentar o visto permanente em seu novo país. Ela namora um chileno, que por um estranho motivo, a ensinou diversas palavras em português. Ela tinha o maior repertório de palavrões brasileiros que eu já vi em todos os anos de minha vida e acordava com Luan Santana no alarme. Graças à ela, encontrei um dos melhores lugares pra fazer compra em Seul.

Acontece que, apesar de adorar a Coreia e afins há quase 10 anos, minha fluência no idioma é praticamente ZERO, arriscando apenas no famoso “annyeonghaseyo” (e mesmo assim devo falar bem errado). E isso era assustador no início.

Cheguei no aeroporto sem ter ninguém para me receber. Ok que já era esperado, mas quando chega a hora, bate um certo desespero. Então estava eu ali, com praticamente 40kg de bagagem, tentando pegar o metrô.

Mais dicas: As cotações monetárias variam conforme o lugar que você vai. No aeroporto e em bancos, normalmente você paga mais taxa. Se puder, troque o mínimo necessário no aeroporto e depois procure casas de câmbio em Myeongdong ou Hongdae. Elas parecem suspeitas, mas lá é normal e dá tudo certo no fim.

Fiquei maravilhada com o transporte público coreano. O aeroporto já é integrado ao metrô, o que facilita bastante. Lá, você paga pelo trajeto, então você coloca onde está e para qual estação vai, que eles calculam o valor e emitem um cartão para você. ATENÇÃO: Você coloca o cartão na hora de entrar e na hora de sair da estação, então fique atento, porque quase joguei fora após passar a catraca.

Tem um cartão chamado T-Money, que você pode comprar por 2000~3000 won nas lojas de conveniência e pode carregar lá mesmo ou nas máquinas nas estações. Esse cartão pode ser utilizados nas lojas de conveniência, ônibus, metrô e táxis, ajuda muito ter e economiza tempo de comprar o passe toda vez que for se locomover de transporte público.

Coreanos estão sempre correndo olhando para seus celulares. Lêem webtoons, vêem dramas, assistem programas de variedades, respondem o kakao. Eu deveria estar com uma cara de desesperada no meio deles pra tentar não perder o ponto da baldeação. Arrastava duas malas no horário de pico, com o metrô cheio, mal sabendo pra onde ir. Um senhor pegou minha maior mala, subiu as escadas e a deixou lá em cima. Ele me ajudou, mas não tive tempo de agradecer.

Quando finalmente cheguei na estação certa, não estava conseguindo passar meu cartão. Um rapaz me ajudou a sair e ainda se ofereceu pra me ajudar com as malas até o hostel.

Na verdade as pessoas me ajudaram tanto naquele país, que se eu for citar todas as vezes, ficaremos aqui o dia inteiro, eu escrevendo e você lendo.

Me perdi no metrô e um ahjussi disse “follow me” e me levou até a saída certa, depois disso me recomendou alguns lugares que deveria visitar enquanto estivesse pelo país, com um inglês quebrado completamente adorável. Me senti verdadeiramente acolhida.

Raramente você vê alguém falando fluentemente inglês, então não tenha medo de arriscar no pouco de coreano que aprenderam em dramas e músicas, pode ser que te ajude. A frase “todo mundo fala inglês” não é verdadeira lá, da mesma forma que a expressão “coreanos são frios” também não é.

Coreanos são calorosos, à sua própria maneira. Não “brasileiramente” calorosos, mas “coreaneamente” calorosos, se posso assim dizer. Não são de abraçar, de beijar, de sorrir, de tocar. Porém, posso sentir verdadeiramente que gostam de ajudar. Eles não tentam falar seu idioma ou arriscar falando algo que não sabem como nós, no embromation. Eles falam devagar, no próprio idioma e com gestos. Não entendeu? Não tem problema, eles param o que estão fazendo pra te ajudar e te guiar. Passamos por isso na rua, no metrô, até na loja de conveniência pararam para me ensinar a fazer o tal do macarrão instantâneo no microondas e a desenrolar o kimbap triangular (não pensem que é fácil, o primeiro que tentei comer caiu no chão).

Esses dias passando pelo facebook, vi uma postagem de uma brasileira orgulhosa por ter dado uma de superior para cima de um gringo, que procurava o caminho do metrô no Rio de Janeiro. Esse tipo de coisa me faz pensar o quão ignorante podemos ser, sem saber nada por trás das necessidades daquela pessoa pedindo ajuda. Em minha primeira viagem ao exterior, pude perceber o tanto de pessoas boas que estão por aí, independente de esteriótipos e rótulos que colocamos nelas. Me surpreendi, e muito! É sempre bom saber que o copo ainda está meio cheio.

No próximo capítulo, a Naira vai contar tudo da visão dela, então esperem por isso!

Conte-nos suas experiências e dúvidas. E acompanhem conosco nas próximas semanas.

Por Caroline Akioka
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18 de Maio: O Massacre de Gwangju e o Movimento Democrático Coreano

36 anos após o levante que pavimentou a democracia na Coreia, o país segue como uma das democracias mais consolidadas do mundo, mas as marcas dos protestos ainda continuam.
A Democracia no Brasil percorreu um longo caminho para chegar onde está atualmente e na Coreia do Sul não foi diferente. Com o fim da guerra civil nos anos 1950, o país passou por um regime ditatorial, que ao mesmo tempo rígido, foi o que trouxe as políticas de desenvolvimento que levaram o país para onde está hoje. Com o custo do sacrifício da população, que tinham poucos direitos trabalhistas, o país se desenvolveu no regime de Park Chung-Hee.

O ditador manteve o país com pulso firme, e é lembrado até hoje por sua disciplina em público. Mesmo após sua esposa ser assassinada na sua frente, Park continuou a discursar enquanto os seguranças prendiam o assassino. Park Chung-Hee é o pai da atual presidente sul-coreana Park Geun-Hye, que usou como exemplo o governo do pai, prometendo crescimento ao país.
Os anos 1980 foi marcado por um processo de democratização pelo mundo inteiro, com ditaduras chegando ao fim na América Latina e na Ásia. A Coréia do Sul seguiu a onda do processo democrático, e em Maio, na cidade de Gwangju, foi iniciado uma série de levantes que duraram pouco mais de uma semana, e ajudaram a pavimentar a democracia no país.

População protestando em Gwangju 

Em torno de 250 mil pessoas participaram do levante, que foi brutalmente reprimido pelo governo em gestão. O movimento é considerado o pivô da luta democrática no país. O descontentamento da população podem ser traçados desde o governo de Syngman Rhee, que sempre governou o país com mão firme, e desse momento em diante, o país viu golpes sucessivos no controle do governo.

Polícia indo em direção a manifestantes 

Protestante sendo arrastado por policial durante protesto 

O último, e que desencadeou uma instabilidade política no país, foi o assassinato de Park Chung-Hee. O governo que assumiu, se mostrou mais despótico e autoritário que o anterior, e os desejos de democracia entre a população se afloraram, principalmente entre a população mais jovem. Os protestos surgiram a partir da aplicação de lei marcial no país, pois com a morte de Park Chung-Hee, ativistas pro democracia tinham a esperança da instauração de um governo popular. Chun Doo-hwan, então presidente, aplicou a lei marcial, o que significava que aglomerações populares em lugares públicos e movimentações sem aprovação prévia do governo estavam completamente proibidas.
O Brasil viveu algo similar com os Atos Institucionais (conhecidos como AI) que cortavam direitos da população e aumentava o peso do governo sobre o povo. Na Coréia, Chun Doo-hwan prendeu seus adversários políticos, espalhando pelo país o temor e a repressão. A ditadura era apoiada pelos EUA (caso parecido com o Brasil), que tinha com preferência, governos autoritários e anti-comunistas, do que ditaduras, que estavam abertas a mudanças e livre associação com países inimigos no período de guerra fria.
A complacência dos EUA foi revelada com a liberação de documentos em que o governo americano aprovava o governo sul-coreano de usar forças militares para dissolver a rebelião popular, o que facilitou o massacre em Gwangju.

Os americanos sabiam do sentimento anti-americano entre os movimentos pró-democracia e preferiam manter um bom relacionamento com o governo sul-coreano, então não se pronunciaram sobre o que estava acontecendo dentro do país.

Manifestantes são atacados por bombas de efeito moral

Exército atacando manifestantes com bombas de efeito moral
Os protestos começaram de 18 de maio e seguram até o dia 27, mas a democracia não veio logo em seguida com a abertura do governo. 

No Brasil, a ditadura acabou em 1985, mas na Coréia, a luta continuou por mais 5 anos até que no início do anos 1990, Chun Doo-hwan saiu do cargo e abriu espaço para eleições.
O número de mortos não é exato, mas estima-e que mais de duas mil pessoas tenham morrido nos confrontos, por fontes não oficiais, enquanto fontes oficiais estimam que apenas 170 morreram.

Caixões de vítimas dos ataques promovidos pelo exército e polícia

 Mães de luto pela morte dos filhos 
O motivo dos protestos terem começado especificamente em Gwangju, na região de Jeolla (atualmente dividia em Jeolla do Norte e Jeolla do Sul), também se deve ao regionalismo. A população da região se sentia abandonada pelo governo central, e que tinha se favorecido muito pouco da industrialização no país. Até nos dias de hoje, Jeolla ainda não é uma das regiões mais ricas do país. A população tinha um sentimento de que desde o presidente Park Chung-Hee, a região de Gyeongsang foi a que mais se beneficiou com o rápido crescimento do país.
Em Gwangju, o dia 18 de maio ainda é lembrado em reconhecimento as vítimas dos protestos.
Em 2013, o grupo de k-pop SPEED, lançou a versão drama da música “That’s my Fault + It’s Over” que faz alusão aos acontecimentos e relembra as vítimas dos protestos.
Veja também o documentário “The Fight for Democracy” feito pela Pacific Century.
Por Caio Garcia
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Conheça KIM CHI o novo sucesso das drag queens Made in Korea


Ultimamente o RuPaul’s Drag Race vem chamando a atenção da K-IN, não somente por suas lacradoras personagens, mas sim pelo fato de uma delas estar representando (e MUITO BEM) a Coréia do Sul no mundo das drag queens. UHUUL!
Por isso, a K-IN resolveu mostrar um pouco mais dessa pessoa maravilhosa que é a KIM CHI.
Nascida nos Estados Unidos e criada na Coréia do Sul, retornou ao seu país de origem há 8 anos e se estabeleceu em Chicago. Em 2012 começou a se montar e tornou-se residente da mesma festa que recebia Trixie Mattel e Pearl (antigas participantes do RuPaul’s Drag Race), chamada Nerverland

No mesmo ano acabou se tornando uma das hostess principais nas noites de Chicago. Kim foi convidada a se apresentar em inúmeros locais como Nova Iorque, Boston, Texas, Providence, Iowa, Cidade de Salt Lake, Milwaukee, Madison e Havaí. Aos 27 anos, foi uma das primeiras artistas a serem escolhidas para fazer parte do elenco da 8ª temporada do reality RuPaul’s Drag Race.



Para bons conhecedores, o nome artístico Kim Chi é inspirado do prato coreano kimchi, que consiste na acelga apimentada, o que acabou combinando com a personalidade da mesma. Grande parte dos looks da drag tem influência de animes, ela se vê como um híbrido cultural, com um conhecimento de estilo e moda conceitual. O resultado de tudo isso são as maquiagens e visuais incríveis que conquistam o público cada vez mais.

Confira uma lista com 10 curiosidades sobre Kim Chi:


1 – A diva assiste o reality desde a 1ª temporada, em 2009.

2 – Ela levou cerca de 40 a 50 looks para a competição.

3 – Kim já participou de um quadro chamado “Cooking with Drags”, onde cozinhava o famoso prato coreano Bi Bim Bap.



4 – Kim Chi faz aniversário no dia 8 de Agosto e é do signo de leão, o que já explica muita coisa!




5 – No episódio “Meet the Queens”, Kim disse que sua melhor amiga é Trixie Mattel. 




6 – Uma das drag queens que ela mais admira é a Porcelain.


7 – Ela se vestiu como drag queen pela primeira vez para ir à uma festa com Pearl, e o resto é história.
8 – Em uma entrevista para o “The Drag Enthusiast”, Kim Chi disse que: “ser drag significa conseguir me tornar quem eu quiser e criar um visual de conto de fadas, no que imediatamente já recebo uma resposta das pessoas”.
9 – Kim Chi já declarou que demora cerca de três horas para se arrumar, mas se precisar se apressar fica pronta em 20 MINUTOS. – ALOKA!



10- Um sonho para Kim é um dia se apresentar na Coréia, pois ela espera que o mercado de drag queens mude e que elas sejam mais aceitas.



A gente avisou que ela é uma pessoa maravilhosa! E você o que achou? Está na torcida por ela? Conte aqui nos comentários.

Kim Chi a K-IN está torcendo por você! 


Acompanhe a Kim Chi nas redes sociais!




Por: Giovanna Akioka
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